BA 168 | Entenda o momento de escassez generalizada de autopeças

Por Redação Balcão Automotivo
05/11/2020 18:32:48

 
E como as indústrias, distribuidores e varejistas estão lidando com essa situação
 
Quem poderia imaginar que alguns setores da economia, como é o caso de autopeças, teriam ainda neste ano uma recuperação em “V”? O que significa uma retomada da atividade econômica ou até superando o nível imediatamente pré-queda. Passado o período da pandemia em que o setor viveu uma forte retração, com fechamentos de fábricas ou redução de turnos, a demanda por autopeça voltou com tudo, surpreendeu muitos, e o que o mercado está enfrentando é um forte desabastecimento de peças.
 
Fundador da 2D Consultores Associados, Marco Flores explica que vários fatores têm levado ao desabastecimento. Especialista em autopeças, já no primeiro semestre ele previa que haveria um aumento de demanda, mesmo naquele cenário em abril e maio em que tudo indicava que o Brasil viveria uma depressão econômica, ou seja: trimestres consecutivos de queda do PIB. “E a minha leitura era que o mercado voltaria em V. Talvez se eu tivesse uma indústria com dois mil funcionários, a minha previsão fosse mais contida”.
 
Previsão que foi certeira e ele acredita que isso não será somente uma bolha no segmento automotivo, ao contrário, a demanda aumentará e um dos principais fatores está relacionado à segurança sanitária. “Entendo que é uma nova demanda relacionada à mobilidade urbana e vários estudos mostram isso. O que vai criar uma exponencial utilização de veículos próprios”.
 
Sobre os fatores que resultaram na falta de peças, Flores começa por falar dos insumos. “Insumos para a indústria é uma decisão de compra programática. Não é uma decisão de compra chamada de eficácia imediata, como é a do varejo. Além disso, parte dos insumos é importada. Desde o pedido até a entrega esse processo leva em média 90 dias. Portanto, os insumos que elas receberam em setembro foi o que elas compraram no final de maio ou início de junho, em uma época em que o cenário era bem diferente do atual”.
 
De maneira geral, as indústrias acreditaram que o movimento de retomada seria em “U”: uma recuperação mais lenta e que pode levar até dois anos para chegar ao patamar de antes da pandemia. “Principalmente no período da pandemia, a redução da demanda fez com que as indústrias lessem no mercado uma grande demora ou que nem retornaria nesse ano, talvez só no começo de 2021. Mas teve uma recuperação em “V” e para piorar não foi somente o nosso segmento que fez esse movimento, como também o da construção civil, eletroeletrônicos, produtos farmacêuticos, entre outros”.
 
Os insumos do mercado de autopeças são comuns em outros setores que tiveram um grande movimento para cima, isso fez com que a falta de mercadorias só se agravasse. Outro fator que contribuiu negativamente foi a desvalorização cambial e as exportações dispararam. “Parte da produção nacional de alguns insumos foi preponderantemente exportada. O volume de exportação de aço, por exemplo, que era de cerca de 50% da produção nacional, passou para quase 80%”.
 
Marco Flores, fundador da 2D Consultores Associados – Foto: Divulgação
 
Citando um estudo da FIESP, com a participação de 314 indústrias, Flores conta que 50% dos participantes disseram que no final de agosto estavam tendo um enorme problema para conseguir insumos. Lembrando que a decisão de compra é programática, “o que foi comprado no final de abril chegou no final de junho ou no início de agosto”, ele diz que a atual falta de insumos é corrigível, porém, corrigível programaticamente. “O que me faz prever que a normalização só acontecerá no próximo ano, a partir de fevereiro”.
 
Pelo estudo da FIESP, entre os principais insumos que faltam, em primeiro lugar está o papelão, seguido pelo aço e pelas resinas, como as que compõem o produto plástico. Todos eles são usados na indústria de autopeças e foram também os que tiveram maior aumento de preços. A exemplo da tonelada de aço, cotada em US$ 93, em janeiro deste ano, e que chegou a US$ 124, em 31 de agosto, fora a variação cambial.
 
“O que também aconteceu aqui, dado que alguns insumos são comprados diretamente do fabricante ou de alguns canais de distribuição, a indústria de autopeças foi impactada pelo aumento de preços. Os aumentos de preços que aconteceram até agora são uma parte, a outra parte, as indústrias terão que repassá-los no último trimestre deste ano”, conclui.
 
Termômetro
 
Ranieri Leitão, presidente do Sincopeças Brasil e do Sistema Sincopeças/Assopeças (CE) – Foto: Divulgação
 
Para medir o quanto o desabastecimento está afetando o mercado, Ranieri Leitão, presidente do Sincopeças Brasil e do Sistema Sincopeças/Assopeças (Ce), conta que foi feita uma pesquisa com varejistas e centros automotivos. “A pergunta foi: Em que nível está a entrega dos distribuidores quando vocês fazem a compra? A resposta foi praticamente unânime: - Nós compramos 10 itens e só recebemos 6, e de alguns distribuidores menos do que isso. Levando isso em consideração, o índice de desabastecimento é em torno de 40%”.
 
Para driblar esse transtorno, o caminho tem sido buscar novos fornecedores e até comprar a peça com um valor mais alto. “Porém, os clientes não estão compreendendo esse aumento de preço exacerbado. Precisamos ter dois cuidados: atender o cliente, o que é necessário, mas atendê-lo sem um aumento exorbitante para que ele não imagine que a empresa está querendo explorá-lo”. Na opinião de Leitão, “só teremos um ajuste de conduta para diminuir o desabastecimento por volta de fevereiro ou março de 2021”.
 
O que dizem os fabricantes
 
Head of Sales & Marketing – Brazil Aftermarket da DRiV (amortecedores Monroe), Edison Carvalho Vieira conta que com a pandemia o setor de autopeças inicialmente suspendeu as compras de forma abrupta, e que com a recuperação rápida dos últimos meses, as indústrias estão enfrentando dificuldades com a cadeia de fornecimento de matéria-prima, principalmente de aço e embalagens, itens que estão presentes em vários setores produtivos.
 
Edison Carvalho Vieira, Head of Sales & Marketing – Brazil Aftermarket da DRiV (amortecedores Monroe) – Foto: Divulgação
 
A defasagem é de cerca de 20% do volume total. “E isto também está impactando os custos na aquisição das matérias-primas”, diz Vieira, acrescentando que a perspectiva para este segundo semestre é de aumento de demanda comparado ao mesmo período do ano de 2019, e de crescimento nas vendas até março de 2021. “Para atender a esta demanda, contratamos cerca de 100 pessoas em nossas operações de produção e logística, e também antecipamos com nossos fornecedores as estimativas de consumo para os próximos seis meses”.
 
E, segundo ele, com uma vantagem competitiva. “Atendemos o mercado com cerca de 90% de produção local, o que neste momento é uma vantagem competitiva ante a variação cambial e velocidade nas respostas no processo fabril”. Para Vieira, o setor deve planejar suas necessidades com prazo maior neste momento, pois a visibilidade de compras futuras é o que vai ajudar no planejamento da cadeia de fornecimento.
 
Na Dayco, o diretor de Aftermarket Latam, Marcelo Sanches, mostra um cenário similar. “A forte recuperação na demanda por peças no AM vem causando falta de matérias-primas e insumos em geral por toda a cadeia produtiva. Esse parece ser um problema não específico do AM brasileiro, mas mundial. E o acréscimo tem sido percebido de forma homogênea em todos os produtos comercializados pela Dayco, porém a escassez de matérias-primas e insumos se mostra mais preocupante em relação ao aço e papelão”.
 
Marcelo Sanches, diretor de Aftermarket Latam da Dayco – Foto: Divulgação
 
Para lidar com essa situação, ele conta que a Dayco vem buscando alternativas para suprir essa escassez geral dentro de sua rede de CD´s espalhada por todos os continentes, visando minimizar ao máximo os impactos no nosso mercado. “Estamos também procurando acelerar processo de validação de fontes alternativas de suprimento sem, contudo, abrir mão do padrão de qualidade exigido para nossos produtos”.
 
Para este segundo semestre, ele diz que é esperado um aumento de cerca de 40% na demanda em comparação com o primeiro. “Nenhum elo da cadeia de suprimentos parece estar preparado para tal crescimento. Nós voltamos a operar com três turnos de produção, contratamos mão de obra adicional tanto em caráter permanente como temporário, autorizamos fretes especiais com mínimo possível de repasse aos preços e intensificamos sinergia entre os diversos CD´s da Dayco espalhados pelo mundo, buscando ajuda mútua”.
 
Sanches comenta que no curto prazo (3 meses) algum desabastecimento será inevitável. Já no médio e longo prazos, “nós estamos incrementando a produção local e acelerando processo de validação de fontes alternativas. Nosso investimento na nova fábrica instalada em Indaiatuba (SP) também tem contribuído de forma muito positiva nessa retomada, pois proporciona maior agilidade devido à integração de processos, pessoas e logística”.
 
Amaury Oliveira, diretor Executivo de Aftermarket para a América do Sul da Delphi Technologies – Foto: Divulgação
 
Amaury Oliveira, diretor Executivo de Aftermarket para a América do Sul da Delphi Technologies, informa que o desabastecimento é algo que já atingiu os seus fornecedores em diferentes matérias-primas. “Consequentemente, esse cenário resultou na dificuldade de finalização de determinados produtos”. E que por conta da preparação na pré-pandemia, eles conseguiram manter os volumes de entrega por um período mais longo. “Neste momento, estamos agindo em busca de soluções com fornecedores locais para continuar atendendo a demanda sem permitir que faltem determinados produtos”.
 
Conforme ele, é perceptível o aumento em todas as linhas, mas, principalmente, nos produtos de linha Diesel, que não foram afetados pela pandemia. Sobre esse segundo semestre, “acreditamos que o mercado passou por uma alta nos últimos meses e a demanda no segundo semestre está superior ao previsto no início do ano. Estamos administrando o estoque com mais assertividade para garantir produtos a todos os clientes”.
 
Questionado qual seria o caminho para evitar o desabastecimento, Oliveira avalia: “é difícil falar sobre como evitá-lo em um momento em que a maior parte dos fornecedores já está enfrentando falta de matériaprima. A empresa se preparou melhor no antes para não sentir tanto no agora. A produção local tem sido uma ótima opção para suprir esse aumento de demanda e permitir que a Delphi Technologies continue cumprindo seus compromissos de entrega”.
 
A situação dos distribuidores
 
Marcos Nunes Bezerra, diretor Comercial do Grupo Bezerra Oliveira – Foto: Divulgação
 
No Grupo Bezerra Oliveira, Marcos Nunes Bezerra, diretor Comercial, comenta que esta situação não é de agora. “Estou no mercado há 37 anos e esta situação vem se agravando nos últimos 20 anos. Para tentar ter competitividade, a indústria começou a enxugar demais seus estoques. Ela não tem estoque de matéria-prima para garantir dois ou três meses, o que ela produz hoje, ela entrega no dia seguinte”.
 
Para driblar este percalço, Marcos conta que o posicionamento estratégico da Bezerra Oliveira sempre foi o de ter mais estoque. “Isso foi o que fez com que os últimos meses tenham sido surpreendentes para nós, porque falta muita mercadoria no meu concorrente e o mercado virou-se para nós e passamos a vender bem mais. Mas, agora, a minha gordurazinha começou a emagrecer e eu não queria entrar nessa dieta. Estamos precisando de mais mercadorias”.
 
Na opinião da diretora Financeira, Claudia Nunes Bezerra Holanda, a situação é admissível. “Falta um planejamento que tenha mais gordura por parte das indústrias e a nossa esperança é que isso seja resolvido o mais rápido possível, porque ninguém esperava pelo que está acontecendo e ninguém quer perder venda. É completamente admissível o que está acontecendo, porque ninguém esperava esse aumento de demanda. A Bezerra Oliveira trabalha com um estoque para três ou quatro meses, se não tivéssemos nos preparados com esse estoque, com certeza, teríamos sofrido bem mais”.
 
Claudia N. Bezerra Holanda, diretora Financeira Grupo Bezerra Oliveira – Foto: Divulgação
 
O mesmo tem sido vivenciado na Odapel, conforme conta o diretor Comercial, José Augusto Dias (Jô). “A Odapel sempre trabalhou com um estoque bem ajustado, então não sofremos tanto. Principalmente no começo da pandemia houve uma queda de vendas e os nossos estoques que eram de três meses no primeiro mês, virou cinco. Voltamos a comprar normalmente a partir do dia 25 de abril, comprando o que estávamos vendendo e tentamos manter a originalidade da quantidade de estoque do começo da pandemia”.
 
Passados quatro meses, fala Jô, a situação começou a ficar um pouco mais difícil. “As vendas começaram a aumentar em uma velocidade que a gente não esperava e acabamos queimando o estoque. Não que eu não consiga atender o meu cliente, pois se eu não tenho uma peça da marca X, eu tenho a da marca Y. O nosso índice de atendimento é em torno de 98%, 99% e agora está em torno de 96%, 97%. Dificuldades todos estão passando, mas nós um pouco menos pela quantidade de estoque que sempre tivemos na nossa casa”.
 
Foco no cliente
 
Na avaliação de Ana Paula Cassorla, diretora de Marketing e Compras da Pacaembu Autopeças, “o mercado de distribuição está consumindo seus estoques e a reposição está lenta por parte da indústria. Por isso, nós estamos encontrando falta de produtos no mercado. Além do efeito de falta de produtos, estão havendo muitos aumentos de preços, o que vai impactar bastante no bolso do consumidor final, seja ele frotista ou dono do carro”.
 
José Augusto Dias (Jô), diretor Comercial da Odapel – Foto: Divulgação
 
A Pacaembu é uma empresa focada 100% em autopeças para veículos comerciais e a venda de peças para caminhões está bem aquecida. “A demanda já está alta. A questão é saber se ela vai continuar aquecida ou se estamos passando por um período especulativo onde as empresas buscam reabastecer seus estoques. De qualquer forma, entendemos que até dezembro, janeiro, a demanda deve continuar aquecida, pois a indústria regularizará sua carteira, recontratando equipe, colocando a roda para girar na mesma velocidade anterior à crise”.
 
De um jeito ou de outro, comenta Ana Paula, a indústria vai se reorganizar e o mercado vai se normalizar. “Esperamos que as demandas atuais se mantenham e cresçam sustentadas pelo crescimento da atividade econômica brasileira. Temos uma grande frota circulante que precisa de manutenção para circular com segurança e, neste momento, as pessoas estão buscando retomar suas vidas, suas atividades com novos hábitos que valorizam saúde e segurança”.
 
Ela acrescenta que a Pacaembu possui uma estrutura forte de estoque e logística e conta com 30 filiais, todas com estoque e equipe comercial. “O cliente tem uma grande chance de encontrar o que procura, pois se não temos na filial mais próxima podemos atendêlo por outra unidade. Vamos sempre fazer o possível para conseguir atender à necessidade dos nossos clientes no menor prazo possível. Continuamos como sempre fizemos: trabalhando muito na reposição e no planejamento dos nossos estoques”.
 
Pressão no estoque
 
Ana Paula Cassorla, diretora de Marketing e Compras da Pacaembu Autopeças – Foto: Divulgação
 
Diretor e proprietário da Auto Norte, Carlos Eduardo Monteiro de Almeida (Cacai), afirma que o caminho é aumentar o estoque. “O desabastecimento já afetou os negócios, pois muitos fabricantes não estão entregando mercadorias e nós não estamos atendendo os nossos clientes como gostaríamos. Não dá para mensurar qual é a proporção de desabastecimento, uma vez que são vários fabricantes, de várias linhas de produtos diferentes. O único jeito é aumentar o estoque”.
 
Para este segundo semestre, ele prevê que a demanda aumentará ainda mais. “Com certeza vai haver um aumento de demanda na região (Nordeste), pois temos a safra da cana-de-açúcar e, historicamente, o segundo semestre sempre foi melhor que o primeiro. Para atender a demanda, estamos aumentando o prazo médio de estoque”. Por parte dos fabricantes, ele analisa que o único jeito seriam eles aumentarem também os seus estoques. “Assim como nós, distribuidores, estamos aumentando para atender a demanda deste momento. Nós temos que surfar essa onda”.
 
Importação
 
Roland Setton, diretor Comercial da Isapa, comenta que, de fato, os problemas nas cadeias de suprimentos estão influenciando negativamente na produção de autopeças para o mercado de reposição. “Somado a esse fato, verificamos um aumento de demanda na ponta, em nossa opinião, de maneira reprimida em decorrência da pandemia”.
 
Carlos Eduardo Monteiro de Almeida (Cacai), diretor e proprietário da Auto Norte – Foto: Divulgação
 
No caso específico da Isapa, a maioria das peças comercializadas é importada, portanto, os problemas estão mais ligados à desvalorização cambial do que à dificuldade na cadeia de suprimentos. “Nosso estoque atual está atendendo às necessidades do mercado, porém, estamos verificando um aumento na demanda de nossos produtos. Por isso, nós estamos aumentando as compras no exterior, para nos adequar à atual situação”.
 
Ele defende que o aumento da produção local é um caminho para evitar o desabastecimento de peças no mercado. “Mas, muitas vezes, são necessários investimentos que demandam tempo de maturação. Além disso, a previsão de demanda para o próximo ano está ainda nebulosa, o que dificulta a decisão de investimento no aumento de capacidade de produção”.
 
Ruptura
 
Na Jahu Borrachas e Autopeças, o diretor Comercial, Alcides Acerbi Neto, diz que houve um descolamento entre a retomada do varejo com a retomada das fábricas, agravados pela escassez de matéria-prima e insumos, resultado disso é o desabastecimento de peças. “Hoje, estimamos a ruptura dos estoques em torno de 25%. Para minimizar, nós estamos colocando programações junto às fábricas e oferecendo produtos similares até os níveis de estoques voltarem ao normal”.
 
Roland Setton, diretor Comercial da Isapa – Foto: Divulgação
 
Ele informa que a demanda em produtos tem sido geral. “Não existe uma linha específica de peças pedida, o mercado está por consumir todos os tipos de produtos para a reposição dos estoques e o desabastecimento ou ruptura ainda é uma preocupação”. E que, historicamente, o segundo semestre é sempre melhor que o primeiro. “Sendo assim, o aumento está previsto. Para poder atender satisfatoriamente o varejo, os pedidos estão sendo reforçados, mas como dito anteriormente, as fábricas não estão conseguindo acompanhar a demanda”.
 
Em sua avaliação, a produção local conseguiria atender o mercado, desde que tivesse matéria-prima e insumos para isso. “Porém, as commodities simplesmente sumiram do mercado. Itens como aço, plástico, borracha e óleo, entre outros, estão sendo disputados entre fabricantes de diversos setores e até papel/papelão para embalagem está faltando”. Ele defende a flexibilização da importação de insumos e matérias-primas para a indústria local.
 
Agravado nas curvas D e E
 
Diretor da Unidade de Negócios da DPK Distribuidora de Autopeças, Armando Diniz Filho, conta que os meses de março e abril foram desastrosos, as vendas caíram cerca de 65%, e que em a partir de junho as vendas foram voltando à normalidade. “Em julho já estavam em 85%, agosto chegou a 90% e agora está quase igual ao mesmo patamar do período de pré-pandemia”.
 
Alcides Acerbi Neto, diretor Comercial da Jahu Borrachas e Autopeças – Foto: Divulgação
 
E assim como todo o mercado, eles também estão sofrendo com o desabastecimento. “Muitas fábricas ainda não conseguiram acertar o nível de produção para o abastecimento. Os índices de ruptura de produtos estão muito grandes, antes, era de oito a dez dias o tempo para a fábrica produzir e nos entregar, hoje está em torno de quinze a vinte dias. Isso gera um descompasso no planejamento de produto”.
 
Mais ainda, nos produtos enquadrados nas curvas D e E. “Percebemos que algumas fábricas estão dando preferência à produção de produtos das curvas A e B, então, a venda das C e D perdida é muito grande; o índice de ruptura é muito grande. Várias fábricas começam a melhorar um pouco mais esse suprimento, o que temos discutido e tem vindo deles é que realmente entrará em um nível normal somente em janeiro de 2021”.
 
Aproximação com os fornecedores
 
Murilo Soler, gerente de Logística América Latina da SKF, conta que por diferentes razões, conforme o tipo de produto e aplicação, a cadeia de autopeças já sentiu reflexo no abastecimento dos estoques. “Em geral, com a forma abrupta em que o mundo se deparou com a Covid-19, as ações de quarentena, isolamento social e os fechamentos de fronteiras internacionais geraram o efeito “chicote” com a interrupção da cadeia de suprimentos”.
 
Murilo Soler, gerente de Logística América Latina da SKF – Foto: Divulgação
 
Percentualmente, ele informa que a disponibilidade de peças teve uma queda de 30% para pedidos recebidos. “E a nossa principal ação foi se aproximar dos fornecedores, entender a real capacidade de fornecimento e, em conjunto, traçar planos para reverter a carteira em atraso de toda a cadeia. Durante essa crise, ficou muito clara a necessidade de planejamento colaborativo para buscar aumentar o nível de serviço, onde é chave a análise de demanda para correta decisão de reposição dos estoques”.
 
Ele acrescenta que o alinhamento entre cada parte da cadeia de fornecimento é crucial, assim como decisões estratégicas para replanejar a cadeia e encontrar maneiras de acelerar o nível de disponibilidade e oferta ao mercado.
 
“O fluxo importante para preparação dos estoques começa em um alinhamento com especialistas em vendas através de um fórum de S&OP, e a propagação dessa demanda para o restante da cadeia”.
 
Com esse alinhamento, Soler destaca algumas decisões tomadas para melhorar o nível de serviço: localização de fornecedores estratégicos, suporte de produção, desenvolvimento junto com time de compras de opções novas de fornecedores para atender alta de demanda e alinhamento de estoque de segurança em toda a cadeia. “Outro ponto de grande importância foi um projeto de otimização do centro de distribuição na SKF, concluído no primeiro semestre”.
 
Armando Diniz Filho, diretor da Unidade de Negócios da DPK Distribuidora de Autopeças – Foto: Divulgação
 
Além disso, a empresa está investindo em tecnologia e digitalização para a obtenção de informações de demanda, com dados mais assertivos, o que colabora para um planejamento mais eficaz. “E a busca pela melhoria contínua em nossos processos internos, com foco no cliente, tem sido de grande importância para alcançarmos um melhor desempenho. É fundamental para reverter o desabastecimento causado pela crise da COVID-19 a colaboração e aproximação de todos os pontos da cadeia de suprimentos”.
 
Ele esclarece que o processo de S&OP, onde vendas e operações decidem as estratégias baseadas em análises de históricos e inputs de especialistas sobre o futuro, é essencial para evitar desabastecimento e manter alto nível de serviço. “Esse alinhamento gera valor para toda a cadeia por traçar planos que não oneram nenhum player, mas sim geram redução de custos e aumento de ganhos tanto para o cliente final, quanto para fabricantes e fornecedores. Quão mais eficiente, livre de barreiras e colaborativo for o alinhamento na cadeia de suprimentos, menores serão as chances de ter desabastecimento de estoques, e mais rápida as ações de reversão em uma crise”.
 
E, ainda, “o uso de tecnologia com certeza também é um diferencial, portanto investir no conceito de SC4.0 buscando conectar toda a cadeia e seus estoques, cadenciar as produções e prover informações em tempo real para cada parte são ações imprescindíveis para reduzir o índice de desabastecimento de peças no mercado”.
 
João Pelegrini, fundador do Grupo Pelegrini – Foto: Divulgação
 
No varejo
 
Fundador do Grupo Pelegrini, João Pelegrini, comenta o quanto a situação está complicada. “Estão faltando peças e a previsão é que isso só se normalize em 2021. Faltam insumos, principalmente de papelão para embalar as peças, e de aço e plástico para produzi-las. Outro ponto importante, os chineses estão produzindo mais do que nunca, o nosso País ficou barato (câmbio), o que aumentou exacerbadamente as exportações”.
 
Além disso, ele lembra que “no período da pandemia as fábricas ficaram dois meses paradas ou reduziram os turnos, ou dispensaram funcionários, e agora estão precisando recontratar, o que não acontece do dia para a noite”. Em sua opinião, houve um descompasso: um consumo exacerbado internamente e inesperado, as exportações que dispararam e a redução do ritmo de produção das fábricas.
 
Nesse cenário, Pelegrini conta o que eles estão fazendo para minimizar essa situação. “Nós temos um organismo muito grande de dedicação para que o problema seja resolvido. Vamos atrás de quem tem a peça, porém, o preço está subindo e já tem muitas pessoas esperando por determinados produtos em um prazo maior, pois ele não é encontrado em lugar nenhum. É uma situação que não imaginávamos antes, então, vamos ter que conviver com isso”.
 
Novos fornecedores
 
Jesse Perim, diretor Comercial da Perim Autopeças – Foto: Divulgação
 
Na Perim Autopeças, o diretor Comercial, Jesse Perim, expõe a situação, dividindo-a entre as linhas leve e pesada. “Desde junho já estamos sofrendo com o desabastecimento. Como a linha pesada foi classificada como serviço essencial nas autopeças, sofremos muito pouco com a crise, no final de março até parte de maio. Da segunda quinzena de maio para cá, tem crescido muito a demanda e os fabricantes não estão dando conta e o desabastecimento está piorando cada dia mais”.
 
 
Na linha leve, ele diz que a retomada está um pouco mais lenta. “Demorou um pouco mais para voltar esse mercado, ele está se recuperando, mas não como o da linha pesada, até porque caminhão é uma ferramenta de trabalho. Mas, como muitas fábricas produzem para ambas as linhas, a situação acaba sendo a mesma”. Além da alta do dólar, o que impacta nas importações de peças e insumos e, consequentemente, no aumento de preços.
 
“A demanda está superior à demanda normal, e o que está acontecendo é essa bolha: o fabricante não consegue dar conta de produzir, o varejo não está estocado e muito menos o nosso cliente, ele compra quando quebra o caminhão. Mesmo considerando que esta super demanda foi para cobrir a lacuna do período da pandemia, isso já foi superado e ela está muito superior ao mesmo período do ano passado”.
 
Marcelo Gianantonio, proprietário da Auto Peças Gian – Foto: Divulgação
 
Na Perim, eles lidam com essa situação da seguinte forma: “além do desabastecimento, uma das dificuldades enfrentadas é de aumento de preço, todos os dias por parte de alguns fabricantes. Nós estamos tentando desenvolver novos fornecedores, colocando pedidos para muito mais tempo de estoque, quem consegue nos atender, ótimo, quem não consegue, paciência. E focamos muito no importado, pois eles estão com menos dificuldades, mesmo com o dólar alto, estamos tendo que buscar peças fora”.
 
Marcelo Gianantonio, proprietário da Auto Peças Gian, conta que em nenhum momento eles pararam, houve uma queda brusca de movimento durante a pandemia e agora, a retomada. “Ainda abaixo do que era antes (85% do faturamento) e um dos motivos é a falta de peças em todas as linhas. Automaticamente, está ocorrendo aumento dos preços”.
 
Segundo ele, tudo indica que a demanda crescerá até final do ano. “Nós estamos tendo que diversificar nossos estoques em marcas similares, na necessidade de ter determinado produto, minimizando as faltas. E disparou o sistema de delivery e nós tivemos que aprimorar e aumentar a estrutura, pelo atual momento. Estamos também investindo em vendas online e marketing digital como alternativas para manter as vendas”.
 
Para finalizar, Gianantonio afirma que o mercado necessita aumentar a produção, pois a rede de distribuição está com estoque muito baixo, devido à parada de algumas fábricas na quarentena. “Além disso, outra iniciativa para minimizar esse problema, no meu entendimento, seria o Governo reduzir os impostos de importação para compensar a alta do dólar, visto que nosso mercado de autopeças depende muito dos importadores”.


Comentários

[Por Fabio Sartorelli ]

No meu entendimento, se o governo fosse atuante com uma visão plena da situação, poderia agir e oferecer, uma forma de desoneração para o aço e papel , além de subsidiar algumas transações, para que a rida possa girar gerando assim, novos empregos e novas arrecadações ao.inves de taxar ainda maus as transações.


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