BA 168 | Fauzi Timaco Jorge articula sobre “a hora de grasnar”

Por Redação Balcão Automotivo
06/11/2020 20:11:38

 
A economia nos proporciona meios técnicos de preciosa utilização nestes momentos de queda da atividade econômica por que passa o mundo como um todo. Um destes elementos é o que diz respeito ao comportamento da quantidade demandada como consequência direta das variações dos preços praticados nos diversos segmentos de mercado. Trata-se da elasticidade-preço da demanda, um aspecto relevante na análise microeconômica – ramo da ciência econômica que focaliza a teoria do consumidor, a teoria da produção e a teoria do preço. Na sua forma mais simples, este conceito nos aponta a consequência direta da redução ou aumento do preço de um bem sobre a quantidade demandada deste mesmo bem. Conhecido o coeficiente de elasticidade-preço da demanda Edn, dado pela relação entre a variação percentual da quantidade demandada e a variação percentual do preço do produto, tal que
 
"E" _"dn" "= " "Variação % da quantidade demandada do bem n" /"Variação % do preço do bem n"
 
é possível estimar qual seria a repercussão de certas reduções do preço praticado sobre a receita total da firma. Essa ferramenta de microeconomia nos indica, sem fazer qualquer outra conta mais complicada, se uma redução de preço de 10%, por exemplo, provocaria aumento ou redução da receita total, definida pela multiplicação do preço pela quantidade vendida. Se este coeficiente de elasticidade-preço da demanda Edn for maior do que |1|, caracteriza-se uma demanda elástica em relação a preço. Qualquer variação percentual do preço praticado levaria, portanto, a um aumento da quantidade demandada numa proporção maior do que essa variação percentual do preço, por exemplo, em 20%. Como consequência, a receita total da firma aumenta, mesmo com redução do preço praticado.
 
Para uma verificação do que ocorreria com a receita total da firma, utilizemos o percentual de redução do preço aqui sugerido de 10% e, como consequência, um impacto de 20% a mais na quantidade demandada do bem. Logo, a receita total, dada pela multiplicação dos preços praticados e quantidades vendidas, sairá, por exemplo, de R$ 10.000,00 quando o preço for R$ 100 e a quantidade vendida for 100, para R$ 10.800,00 quando o preço passa a ser R$ 90 e a quantidade saltar para 120, em razão das variações percentuais aqui apontadas. E todos os agentes ficarão felizes: o consumidor que pagou menos, a indústria que produziu mais e os governos estaduais e municipais - que não reduziram seus tributos - abocanharão uma parte maior desta Receita Total.
 
 
 
Teoria à parte, vamos relembrar alguns momentos específicos do nosso passado recente. Por pesquisas diretas, se concluiu que bens de consumo duráveis, de maneira genérica, respondem mais do que proporcionalmente às variações de preço. Logo, sua demanda é elástica em relação a preço. Esses bens compreendem os produtos da chamada linha branca – geladeira, fogão, máquina de lavar – e os veículos automotores, onde se incluem os automóveis, caminhões e autopeças. Por conta desta observação sobre o tipo de elasticidade-preço da demanda, o governo federal decidiu, na gestão de Guido Mantega como Ministro da Fazenda naquela época, promover a redução ou mesmo eliminação de um dos impostos federais - o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) - e, com esta medida, alavancar a atividade econômica, pelo aumento da quantidade demandada. A indústria de carros e seus componentes e a indústria de produtos da linha branca observaram um crescimento das vendas, com aumento da produção. O ano de 2012 apresentou um crescimento diferenciado para a indústria destes bens de consumo duráveis. Segundo o IBGE, conforme registra o Estadão, “a redução do IPI fez com que a categoria de bens de consumo duráveis apresentasse desempenho bem diferente do setor industrial como um todo. Enquanto os bens duráveis apontaram avanço de 9,4% em outubro e novembro, na comparação com o mesmo período de 2011, o total da indústria cresceu apenas 0,8%”.
 
Não seria o caso, então, de um lobby [grupo de pressão] da indústria destes bens de consumo duráveis junto ao Governo Federal por meio de suas Associações de Classe, para uma retomada da eliminação deste IPI, reduzindo o preço de mercado de seus produtos, para uma alavancagem dos negócios neste momento de sensível queda da demanda agregada? Aí nesse apelo se juntariam os governos municipais e estaduais, que teriam uma ampliação de sua receita tributária na razão direta do aumento do volume de vendas da indústria. Evidentemente, outros setores, como é o caso dos bens de capital, também poderiam aderir a estes apelos, considerando os efeitos benéficos sobre a quantidade demandada de seus produtos. A repercussão de um aumento da demanda de bens de capital se faz sentir diretamente sobre a produtividade, fator por excelência de crescimento econômico.
 
Como devem ter notado, a fórmula da elasticidadepreço da demanda não indica variação percentual de preço para mais ou para menos. Isso porque, conceitualmente, aumento de preço leva a uma queda da quantidade demandada e redução de preço leva a um aumento da quantidade demandada, coeteris paribus, ou seja, com tudo o mais constante. Se a eliminação de tributos incidentes sobre a base consumo, ao contribuir para a redução do preço de mercado, leva a um aumento da quantidade consumida, o efeito inverso também é verdadeiro: ao retornar o IPI na sua extensão sobre tais produtos, o preço de mercado aumenta. Como consequência, presenciamos substancial queda da quantidade demandada destes produtos, carroschefes da economia.
 
Colbert, controlador geral das finanças do rei Luiz XIV, da França, citado por Hélio Beltrão, colunista da Folha de S.Paulo, apregoava: “A arte da tributação é a arte de depenar o ganso, obtendo o máximo de penas com o mínimo de grasnidos”. E o colunista pergunta: “É HORA DE GRASNAR?”.
 
 
* Fauzi Timaco Jorge (foto) é Mestre em Economia pela PUC/SP. Exerceu função executiva em empresas nacionais e estrangeiras nas áreas de vendas, exportação e planejamento. É sócio-gerente da Timaco Planejamento Empresarial desde 1994, uma consultoria na área de planejamento empresarial. Atua como Professor-Tutor no Pós-Graduação Online em Gestão Financeira do sistema FGV Online, desde 2010. Em suas atividades acadêmicas consta a coautoria de diversos livros versando sobre Economia, Finanças e Controladoria.


Comentários

Seja o primeiro a comentar


Canal Balcão Automotivo

Inscreva-se em nosso canal no YouTube e assista aos nossos vídeos

NOTÍCIAS MAIS LIDAS