BA 169 | Conheça as histórias de pessoas no varejo de autopeças

Por Redação Balcão Automotivo
09/12/2020 12:47:49

 
Dos que estão na linha de frente no atendimento e de empresários do setor. E o futuro da profissão balconista na visão de especialistas
 
Em cada loja de autopeças são as pessoas que fazem a diferença e cada uma delas tem a sua história, o seu aprendizado e a sua vivência. Em tempos cada vez mais digital, mudanças no atendimento irão existir, bem como em se tratando de novas tecnologias, o que requer atualizar-se constantemente e todos precisarão se adaptar. Nessa matéria, confira um pouco da história de quem faz parte desse setor, os caminhos para a regulamentação da profissão de balconista e o que dizem os especialistas sobre o futuro dessa profissão.
 
A começar sobre o futuro, na visão de Valquírio Cabral Júnior, especialista em vendas do varejo. “O balconista é a pessoa-chave das vendas de uma loja, é quem vai falar diretamente com o consumidor, ou seja, com quem compra. Costumo dizer que o balconista é a porta de entrada da loja. E, cada vez mais, o consumidor procura por profissionais de vendas mais especializados e treinados. Por isso, o balconista tem que conhecer o produto que está vendendo, ser aquele profissional que vai ajudar o cliente nas dúvidas que possui”.

Sócio e diretor da Posiciona - Educação e Desenvolvimento, Paulo Garbuio, também avalia como fundamental o trabalho do balconista de autopeças para o sucesso de qualquer loja e o conhecimento técnico pode ser decisivo na hora da venda. “A tecnologia evolui exponencialmente nas composições dos veículos e isso requer atualizações constantes e periódicas dos profissionais que atuam no balcão de autopeças”.
 
Segundo ele, as atualizações podem ser formais, como cursos, seminários, etc., e também por vídeos, tutoriais, entre outros, muitas vezes oferecidos de forma gratuita na internet. “O mais importante é que os profissionais da área fiquem ligados e alertas a toda e qualquer novidade do mercado e se preparem para transformar o conhecimento técnico em argumentos de vendas”.
 
Vendedor do futuro
 
Questionados sobre quais são as características que o vendedor do futuro precisa ter, Garbuio começa respondendo que o futuro na área de vendas é incerto, assim como tudo que vivemos. “O que podemos (e devemos) fazer é estender nosso olhar atual para o papel do vendedor. Muito mais do que um recurso, ele protagoniza esse processo. Com muitos clientes migrando para plataformas digitais, realidade virtual, inteligência artificial, é preciso utilizar a tecnologia como uma aliada ao processo”.
 
Valquírio Cabral Júnior, especialista em vendas do varejo – Foto: Divulgação
 
Ele cita Carol Manciola, que no seu livro, #BORA BATER META, diz: “diferenciação num mundo cada vez mais digital é ser cada vez mais humano”. “A tecnologia iguala, a humanização diferencia. O vendedor do futuro se faz presente a partir do momento em que age antecipando necessidades e conectando problemas e sonhos a soluções (e não simplesmente a produtos e serviços). Na venda presencial, a maneira de vender é mais importante do que aquilo que se vende”.
 
Para Júnior, o vendedor do futuro precisa ter duas características principais: “adaptabilidade ao ambiente de negócios, o que significa estar atento às constantes e inevitáveis mudanças, e desenvolver a capacidade de aprender sempre. Frases como “faço sempre assim” e “isso eu já sei” devem ser totalmente descartadas para aqueles que querem evoluir na profissão de balconista”.
 
Conhecimento técnico
 
 
Os especialistas também destacam o conhecimento técnico como essencial. “É muito importante investir em conhecimento técnico porque o consumidor busca no balconista esclarecimentos sobre o produto que ele vende, principalmente no ramo de autopeças. E se o balconista não atender essa necessidade, corre o risco de perder a venda e até do consumidor não voltar mais para aquela loja”, afirma Júnior.
 
Avaliação similar faz Garbuio. “O conhecimento técnico é fundamental e decisivo no momento das vendas. Em um mercado que apresenta novidades constantes, a capacitação técnica se torna um diferencial competitivo, a partir do momento que um balconista melhor capacitado tem melhores condições de aumentar o volume de vendas e gerar cada vez mais negócios e parcerias”.
 
No trato com o cliente
 
Paulo Garbuio, sócio e diretor da Posiciona - Educação e Desenvolvimento – Foto: Divulgação
 
Com o novo comportamento do consumidor, menos fiel e mais conectado, Garbuio defende que, antes de mais nada, o vendedor precisa conhecer profundamente o setor que atua. “Isso significa que deve ter amplo domínio de conhecimento técnico e atualizações do mercado de autopeças”, ele acrescenta que os principais objetivos do vendedor é conquistar e fidelizar consumidores e para isso alguns comportamentos são cruciais, como:
 
- Oferecer um atendimento com qualidade;
- Antecipar as necessidades do cliente;
- Empatia e personalização durante a venda;
- Comunicação clara e objetiva,
- Saber aceitar críticas e sugestões dos clientes.
 
Júnior segue na mesma linha. “Insisto que o balconista deve investir no conhecimento técnico. No ramo de autopeças esse não só um importante diferencial, como fundamental para a conquista do consumidor. Claro que ser gentil, atencioso com os clientes, é muito importante também. Mas isso vale desde sempre”.
 
Network
 
E, para finalizar o tema sobre o futuro da profissão balconista, ambos dão dicas a respeito de como pode ser feito o network. “Hoje em dia, as redes sociais são fundamentais para fazer a network e o balconista precisa lançar mão desse recurso. Precisa também estar atento ao pós-venda, ou seja, preocupar-se com o cliente mesmo depois que ele efetuou a compra. É preciso lembrar sempre: só o cliente satisfeito vai indicar novos clientes”, afirma Júnior.
 
Garbuio também comenta sobre as redes sociais para essa finalidade. “A tecnologia pode aproximar o consumidor do vendedor, em especial através das mídias sociais. Os aplicativos de mensagens são amplamente utilizados, como, por exemplo, o WhatsApp e Telegram. Conexões em rede sociais também podem favorecer o networking, sendo que as mais utilizadas são o Facebook, Instagram e LinkedIn (maior rede social profissional, focada em gerar conexões e relacionamentos profissionais)”.
 
Ele completa que um ponto importante ao interagir com o cliente via mídia social é ter cuidado para não enviar um volume excessivo de mensagens e, assim, ser percebido como um vendedor inconveniente. “Faça interações naturais, sem colocar pressão no cliente, e deixe que ele exponha suas necessidades e desejos para que a partir de então o vendedor inicie o processo de venda”.
 
Julio Laska, da Auto Accessórios Bangu, no Rio de Janeiro (RJ) – Foto: Divulgação
 
Do mercado financeiro para autopeças
 
Em 1980, Julio Laska, proprietário da Auto Accessórios Bangu, no Rio de Janeiro (RJ), trabalhava no mercado financeiro quando o seu pai insistiu para que adquirissem a loja de autopeças que ficava ao lado da sua loja de móveis, cujo proprietário era o seu amigo e tinha perdido tragicamente o seu filho e não quis dar continuidade no negócio. A loja tinha sido fundada em 1950 com o nome de Auto Peças Bangu e, quatro anos depois, passou a ser Auto Accessórios Bangu.
 
“Eu não conhecia nada de autopeças e comecei a estudar. Antigamente, pelos catálogos que eram de papel, pois não havia computador. Os próprios funcionários da loja me explicavam e me ajudavam, e eu sempre tive vontade de aprender, estudar, sempre fui aplicado e comecei a me empenhar nesses catálogos de papel. Lembro-me que existiam algumas dificuldades com devolução de peças e eu comecei a estudar realmente muito isso para evitá-las”, recorda-se.
 
Ao longo desses 40 anos, Laska comenta que muitos desafios foram superados, principalmente pelos planos econômicos e os períodos de inflação. Hoje, os desafios são outros. “Nós estamos atravessando momentos difíceis no nosso ramo, os funcionários têm que passar por uma reciclagem muito grande e estudar bastante. Há uma gama violenta de informações e poucos realmente se esmeram em querer melhorar, estudar e aprender, tanto o pessoal de vendas como os gestores. É preciso estudar muito para entender as novas tecnologias que há nos carros e, infelizmente, nós recebemos poucas informações por parte das indústrias”.
 
Ele acrescenta que hoje para se manterem atualizados o recurso é a internet. “Os distribuidores e fabricantes pouco nos esclarecem sobre algumas modificações, acabamos aprendendo realmente no dia a dia, com o cliente. O trabalho não pode ser feito só dentro da empresa, nas horas vagas tem que estudar um pouco para que as vendas realmente sejam realizadas sem nenhum problema”.
 
Depois da injeção eletrônica, ele diz que, sem dúvida, o grande salto veio com a tecnologia. “A mudança foi muito rápida e a cada ano torna-se mais veloz. Nós temos que estar por dentro das novas tecnologias”. E para quem pretende investir no ramo de autopeças, ele dá um conselho. “Invista realmente em treinamento dos funcionários, mantenha uma equipe super treinada, trabalhe com produtos de excelente qualidade para não haver retorno, tenha um alto capital de giro, porque hoje requer muita grana para se trabalhar. E com muito empenho e muita dedicação se consegue ser vitorioso”.
 
Sobre planos futuros, Laska sintetiza em continuar a trabalhar. “Apesar de eu ter 67 anos, eu me dedico muito à empresa. Não passo um dia sequer sem olhá-la e busco treinar a nova geração que irá me substituir para que a empresa prospere como sempre prosperou. E isso tudo, como eu disse anteriormente, com muito empenho e muita dedicação”.
 
Rogério Nobre Façanha, da Truckão Autopeças, de Fortaleza (CE) – Foto: Divulgação
 
Do assistencialismo social para o varejo
 
Em Fortaleza (CE), Rogério Nobre Façanha, da Truckão Autopeças, conta que quando o seu irmão teve a ideia de comprar a loja ela tinha apenas dois anos de existência. Isso foi em 1987 e ele lhe convidou para trabalharem juntos. Na época, Façanha atuava em um órgão social do Governo do Estado do Ceará. “Eu comecei a trabalhar muito jovem com adolescentes com problemas sociais, eu era concursado e fiquei no órgão por 17 anos. Também fiz curso superior de Pedagogia e de Direito”.
 
Sem resistir ao convite e disposto a atuar na área comercial, Façanha lembra-se que pouco tempo depois o seu irmão foi morar em uma cidade do interior e ele passou a cuidar da Truckão Autopeças. “Acabei gostando e me encantando com o setor, com a vontade de melhorar e fazer diferente, que foi o que sempre procurei fazer, uma empresa conceito e humanizada no atendimento”. E mesmo com todas as dificuldades de quem veio de outra área.
 
“Foi um desafio, eu vim de outro setor e me deparei com esse. Fazíamos de tudo no início, batia escanteio e corria na área para cabecear a bola. Eu abria a loja, ficava no caixa, ajudava no estoque e nas compras, até devagarinho conseguirmos formar a equipe. O começo foi muito difícil, nós tivemos que nos adaptar e conhecer esse ramo que requer muita informação e conhecimento. Buscamos ajuda junto às entidades, como o Sincopeças e o Sebrae, para formar a família Truckão. Foi um trabalho muito grande de seleção e treinamento”.
 
O resultado é uma equipe que tem anos de casa e Façanha diz que a peça principal da Truckão é o cliente. “O nosso tripé é o nosso colaborador, o nosso cliente e o nosso fornecedor, e eu não abro mão desse tripé. Os representantes das fábricas nos trazem várias oportunidades e eu respeito muito o colaborador, como ele está e o que a gente e a empresa podem fazer para ajudá-lo. Realmente é assim que nós pensamos”.
 
O desafio, comenta ele, é o incômodo diário de se reinventar. “De visualizar como estará esse setor daqui a 3, 5 ou 10 anos. Haverá muitas transformações, elas já estão acontecendo”. Como exemplo ele cita os veículos elétricos e que muitas peças deixarão de ser fabricadas. “Temos que trabalhar para nos reinventarmos. Não adianta pensar em embreagem se 90% dos carros serão automáticos”, compara.
 
Façanha também é 2º vice-presidente do Sincopeças CE e conta que atualização não é um problema. “Nós somos muito ativos, toda semana nós temos treinamentos e informações. Como também seminários e as informações das fábricas. E, acima de tudo, o importante é incentivar o nosso pessoal para se atualizar. Nós temos que estar muito fortalecidos”.
 
Silvano Ramalho, da Edson Autopeças, em Cuiabá (MT) – Foto: Divulgação
 
Para quem pretende empreender no ramo, o conselho dele é buscar ajuda nas instituições e junto às indústrias e distribuidores. “Eu aconselharia o Sebrae e o Sindicato de Autopeças, além de definir o que você quer fazer e para onde quer ir. Se quer ser um varejista, um distribuidor ou um varejista com serviço, e procurar as indústrias e distribuidores para saber o que colocará no balcão e no estoque”.
 
E sempre pensar estrategicamente. “O nosso setor é muito vasto, é preciso ter foco no que se quer e pensar estrategicamente para investir na empresa e saber para qual rumo o mercado vai. Procurar o que traz mais resultado de trabalho, gestão de estoque, as linhas que irá atuar e quais existem muita disputa. Outra dica é escolher nicho de mercado que nem todo mundo trabalha”.
 
Os planos de Façanha é continuar se estruturando, procurando adaptar o estoque à nova realidade do mercado, treinar a equipe no dia a dia e buscar produzir mais com menos gente. “Tem áreas que precisamos de pessoas especializadas, como na nossa oficina, mas na parte de estoque, por exemplo, podemos ter várias inovações na parte de TI”.
 
Ele acrescenta que é necessário estar muito atualizado e muito enxuto para permanecer no mercado. “Pois, as margens estão reduzidas, os clientes estão mais exigentes e com mais dificuldade para comprarem. Precisamos estar preparados para esses novos clientes e não sabemos o que será após a pandemia. São tantas lojas para abrir e temos que recuar para ver como ficará esse momento que é muito delicado e o mundo inteiro está passando por isso”.
 
Sociedade conquistada
 
Quando tinha treze anos de idade, o cunhado de Silvano Ramalho, da Edson Autopeças, em Cuiabá (MT), lhe deu a oportunidade de trabalhar na sua pequena autopeças. Hoje, são quatro lojas e eles são sócios. “Comecei na limpeza da loja, fazendo entregas de bicicleta e guardando as mercadorias, estudava de manhã e trabalhava à tarde até os meus 15 anos”.
 
Logo depois, o seu cunhado teve a oportunidade de montar uma nova loja no centro da cidade, uma das maiores de Cuiabá. “Ele não encontrava balconista e me chamou para trabalhar lá. Eu corri atrás e aprendi muito rapidamente a vender peças. Antigamente era um pouco mais fácil, não tinham tantos carros, e eu me apaixonei pelo negócio”. Depois, eles mudaram da primeira loja para uma maior.
 
Ramalho lembra das dificuldades que passaram na época dos planos econômicos mirabolantes. “Foram muitas mudanças de governo, de moeda e de inflação. Várias lojas fecharam, acho que 90% das empresas da mesma época que a nossa e até as mais velhas encerraram suas atividades, e nós ficamos”.
 
Roberto Rocha, da Rocha Autopeças, de Campinas (SP) – Foto: Divulgação
 
No ano 2000, uma nova empreitada. “Eu disse para o meu patrão, meu cunhado, que tínhamos que montar uma loja maior, se não ficaríamos de fora. Montamos uma sede com 1.000 m², informatizamos a loja e contratamos vendedores. Ela se tornou uma loja de referência no Estado, o nome mais lembrado de autopeças na capital”.
 
A sociedade veio com a terceira loja. “Isso foi em 2010, quando abrimos a loja em Várzea Grande (região metropolitana de Cuiabá). Depois inauguramos a 4ª filial, com 2.500 m² e nosso centro de distribuição. A meta é abrirmos três lojas no próximo ano e chegarmos a sete na capital”. Há cinco anos, eles foram convidados para fazer parte da Rede Ancora e Ramalho foi convidado para ser o diretor Regional.
 
“A Rede Ancora alavanca o nosso negócio, sem ela, nós estaríamos praticamente mortos. Com os distribuidores regionais muito fortes aqui, nós somos protegidos pela rede e, com isso, a gente vem crescendo bastante”. Além de todo o apoio. “Ela nos traz informações de maneira muito rápida. A indústria lança um produto e olha para a rede, pois ela tem volume. Automaticamente, a rede solta para os lojistas os preços atualizados e os lançamentos”.
 
Para ele, o desafio maior já passou, com os planos econômicos nas décadas passadas. E mesmo com a pandemia, os negócios prosperaram. “Quando percebi há uns dois meses de pandemia que poderia haver desabastecimento, eu acelerei e comprei. Para a nossa surpresa, o mercado está muito aquecido, o meu movimento aumentou em 50% em relação a 2019”.
 
Com a sua experiência, Ramalho diz que para quem pretende ter o seu próprio negócio, em primeiro lugar, é preciso gostar do ramo. “Também conhecer o negócio ou se for um investidor, contratar alguém que saiba e que conheça o mercado. Uma pessoa não vira vendedor de autopeças do nada, todo vendedor foi estoquista um dia. A escola é o estoque”.
 
Conhecer os mecânicos e ter muita humildade também são essenciais. “Você vai conhecer pessoas humildes e, principalmente, os mecânicos te darão muita força, muito apoio. Se não tiver um bom relacionamento com o mecânico, não irá a lugar nenhum. É sempre ele quem falará bem de você e te indicará quando você tem um produto bom e de qualidade para vender”.
 
Além da abertura de mais três lojas no próximo ano, Ramalho diz que também está nos seus planos colocar os seus dois filhos no negócio e talvez até abrir mais lojas no futuro. “Abrir lojas e crescer junto à Rede Ancora. Quero fechar a capital de Cuiabá e a região metropolitana da Várzea Grande”. Questionado por que não no interior? Ele diz que “respeito muito cada um que está no seu local e todo mundo ganha com isso. Temos muita preocupação em apoiar os lojistas, ainda mais eu que trabalho na Rede Ancora, eu me atento muito a isso”.
 
Roberto Peixoto da Conceição, da GEFPEL Autopeças, de Salvador (BA) – Foto: Divulgação
 
Da retífica para o varejo
 
Roberto Rocha, da Rocha Autopeças, em Campinas (SP), começou a sua história no varejo de autopeças há mais de 30 anos, quando o namorado de sua irmã lhe propôs trabalhar em sua retífica de motores para ajudálo a organizar a seção de peças. Empilhadas, elas forram separadas, etiquetadas e organizadas em prateleiras. “Criamos essa seção para atender a sua retífica de motores. Esse foi meu pontapé inicial, aprender o que eram as peças especializadas para motores. Eu tinha 26 anos, fazia pós-graduação e fui ajudá-lo”.
 
Com a bem-sucedida seção, eles passaram a oferecer para os mecânicos outros itens que envolviam a retífica de motores. “Começamos a fazer parcerias com fornecedores, oferecíamos isso para o mecânico, e passamos a trabalhar com autopeças. Meses depois o negócio estava indo bem e surgiu a ideia de abrir uma autopeças separada da retífica, pois havia muito problema de controle de estoque, naquela época era tudo manual. Criamos um barracão do lado da retífica, totalmente independente dela”.
 
Rocha ajudou na montagem da loja, sem ter ideia do quanto ela cresceria. “Foi na época em que os preços subiam todos os dias e faltavam peças. Sempre fomos um pouco arrojados em comprar para ter no estoque e a inflação nos permitiu ganhar dinheiro. Vendíamos praticamente pelo preço de uma peça a mais e apesar de quando comprávamos o preço era outro, ainda assim tínhamos um lucro muito bom com a peça que tínhamos comprado”.
 
Hoje os tempos são outros e o desafio, diz ele, é a grande diversificação de marcas e modelos de veículos. “São nacionais, importados e até híbridos, meio nacionais e meio importados. Isso criou muitos itens, o que dificulta mexer com essa parte. E o nosso setor tem cerca de 70 mil, 80 mil itens, uma loja pequena, até 20 mil. É muita coisa para administrar e se não tiver um computador que administre o estoque, você não saberá quando precisa comprar, quando deixou de vender, você perde totalmente a administração do seu negócio”.
 
Pela parceria com as fábricas, Rocha comenta que eles estão sempre atualizados em termos de lançamentos e novas tecnologias. “Elas nos mandam encartes, informativos sobre aplicação. Por parte das montadoras, elas só informam à sua rede de concessionárias, é como se fosse um segredo industrial. Tem que aprender com as pessoas que fornecem as peças, até porque para uma mesma aplicação são diversos carros e tem aplicações com vários acabamentos e conexões”.
 
Um aprendizado que faz a diferença na hora da venda. “Essa é a diferença na hora de vender a peça, adquirir o conhecimento para poder atender o cliente. As peças se tornaram muito complexas, com muitas conexões, muitos sensores e com coisas que não tinham antes”.
 
Com seis lojas e um centro de distribuição para atender o balcão, Rocha diz que eles estão crescendo a rede. “Neste ano, nós abrimos mais uma loja, em Araraquara (SP), e adquirimos uma área em uma cidade vizinha para fazer outro prédio que será a nossa matriz, em uma área mais adequada para trabalhar com a loja padrão moderno”. Projeto que foi postergado por falta de material de construção e mão de obra. Também está nos planos abrir mais uma loja.
 
Luís Felipe Homem Pereira, da Dadinho Truck Center, de Aparecida de Goiânia (GO) – Foto: Divulgação
 
Para quem pensa em começar a empreender, Rocha é enfático. “Não comece, o investimento necessário em relação ao retorno é muito pequeno. Mensalmente é preciso agregar itens novos no estoque, o lucro que se tem na venda de uma peça é agregada em um item novo, é um saco sem fundo. Eu considero o setor de autopeças um segmento não rentável, principalmente no Brasil onde o poder aquisitivo é menor, há briga pelo melhor preço e não se consegue ter a rentabilidade que se tem em outros segmentos. Fora as peças que estão no estoque há dois anos e estão corrompendo o seu dinheiro”.
 
Diferentemente de quem começou no passado. “Eu tenho a facilidade de buscar itens em uma loja que não têm em outra, quem não tem esse pulmão de trabalho fica com a peça estocada ou falta peça porque ele não consegue comprar por não ter vendido as outras. E também não consegue ter preço, pois não tem volume de compra. Todas as fabricantes têm preço escalonado por volume. Ele talvez consiga competir em cidades pequenas, mas em grandes centros é difícil”.
 
Abraçando as oportunidades
 
Em Salvador (BA), quando tinha 16 anos de idade, Roberto Cláudio Peixoto da Conceição foi trabalhar na oficina mecânica, chaparia e borracharia do seu tio. Aos 18 anos serviu o Exército e depois foi trabalhar no estoque de uma distribuidora, isso faz 15 anos. “Se há oportunidades é preciso abraçá-las. Trabalhei no estoque, depois fui para o administrativo e eu me interessei por vendas. No administrativo o salário era fixo e em vendas tinha comissão e premiações. E eu tive a oportunidade”.
 
Ele começou a se dedicar e fez curso no Senai. “Depois da área de vendas eu fui chefe de almoxarifado”. O passo seguinte foi na GEFPEL Varejo de Autopeças, onde ele está há 11 anos. “Eu fui o primeiro telemarketing do grupo GEFPEL e nessa filial (em Salvador) nós atendemos o varejo e o atacado”.
 
Dos anos de aprendizado, o principal deles, diz Peixoto, é o trabalho em equipe. “Eu não me tornei o que sou hoje sem uma equipe, eu sou vendedor, mas preciso muito do apoio da minha equipe, de quem trabalha no estoque, no administrativo e de quem entrega a mercadoria. Não existe uma boa venda sem uma equipe boa”.
 
Para ele, o desafio é se aperfeiçoar cada dia mais. “O mercado está competitivo e a cada seis meses as montadoras lançam novos tipos de veículos. Se não se atualizar, alguém passa por cima de você”. E mesmo que a internet ajude, Peixoto afirma que o principal é a confiança que é transmitida ao cliente quando se tem o conhecimento do produto. Ele também conta com todo o apoio que a GEFPEL oferece.
 
Antonio Santos (Toninho), da Perim Autopeças, de Santos (SP) – Foto: Divulgação
 
“Sempre tivemos palestras técnicas e cursos sobre novos produtos, diminuiu por causa da pandemia, e mesmo assim a empresa ajuda quem tiver interesse em fazer um curso custeando uma parte dele. O diretor sempre coloca isso em pauta, se quisermos nos aprimorar, fazer um curso, é só entrar em contato com o pessoal do RH. Isso é muito bom”.
 
Com uma jornada de 8 horas diárias, começando às 8 horas, Peixoto sempre chega um pouco antes. “Por volta das 7h20 para me atualizar, entrar no sistema, nas cotações e para preparar a planilha de planejamento para o decorrer do dia. Às vezes no mesmo dia não é possível responder todas as cotações, também chego mais cedo para resolver as pendências”.
 
Os seus planos para o futuro é ter o seu próprio negócio. “Sempre temos que pensar positivo e sermos otimistas, sem passar por cima de ninguém. Meu plano é abrir algo para mim e eu ser um tipo de supervisor. Trabalhar para mim mesmo”.
 
Paixão pela linha pesada
 
Luís Felipe Homem Pereira, da Dadinho Truck Center, em Aparecida de Goiânia (GO), se diz um apaixonado pela linha pesada e começou no setor em 2014. “Sempre fui fascinado pela linha pesada. Vender um componente para o cliente, ver a peça saindo das indústrias parceiras, de marcas respeitadas, e vê-la sendo aplicada no caminhão que rodará o País é fascinante. É estar no dia a dia do cliente, saber o que se passa com ele, pois ele se torna um amigo e trocando ideias nós conhecemos novas culturas”.
 
Localizada em um ponto estratégico da BR 153, uma rodovia que corta o País de Norte ao Sul, Pereira conta que ele atende muitas empresas parceiras, que têm como desafios a carga horária e mão de obra. “Portanto, não se trata apenas de vender, tem que ter o dom e participar do cotidiano do cliente. Além disso, o caminhoneiro passa muito tempo fora de casa e aqui ele tem uma ponte de apoio completo e de atendimento pessoal. Uma estrutura formidável para ele se sentir o mais confortável possível quando estiver fora de casa”.
 
 
Amarildo César Barboza, o Mazinho, do Mercadocar, de São Paulo (SP) – Foto: Divulgação
 
A sua rotina começa por volta das 7h30 e muitas vezes, já tem caminhões parados na porta. “No dia a dia, tem a parte de compra de peças, saber negociar com o cliente, entendê-lo, deixá-lo à vontade e saber o que você está vendendo para ele. Tem clientes que chegam para comprar uma peça indicada pelo mecânico e nem sempre esse é o único problema, podem ser necessários outros componentes. É preciso apontar para ele isso de maneira profissional, mostrando que estamos fazendo o melhor para ele poder seguir viagem de forma segura”.
 
Com formação acadêmica em ciência aeronáutica, “sou apaixonado pela parte de motores e por qualquer um que movimente uma máquina, o que acabou me atraindo para esse mercado”, Pereira está sempre se atualizando. “Para se adequar é preciso buscar novidades no mercado, modelos de caminhões novos e o povo não gosta de recorrer à concessionária por causa do preço, mas sim ao mercado de primeira linha que está conosco. Aqui nós temos mecânicos treinados, capacitados e qualificados que se tornam os meus melhores com caminhões novos. Também me atualizo em eventos do setor, como a Automotivo Parts”.
 
Para o futuro, Pereira planeja crescer ainda mais. “Temos muito espaço para crescer, há muita tecnologia adiante e muito a aprender para ir se especializando. O nosso grande plano no futuro é ampliar o nosso mercado, a quantidade de mão de obra qualificada e tendo a oportunidade, gerir mais empregos. No ramo de linha pesada são poucos na nossa região, queremos desenvolver a nossa região, e fazer com que a nossa empresa que já tem um porte grande seja maior ainda, trazendo conforto aos nossos parceiros caminhoneiros e aos nossos fornecedores”.
 
Uma história de dedicação
 
Com um pai mecânico conceituado na Baixada Santista, atualmente aposentado, a paixão por autopeças foi despertada em Antonio Marcos Silva Santos (Toninho) logo cedo. “Comecei a gostar de peças quando eu tinha uns 9 anos de idade, e o meu pai me levou para a oficina onde ele trabalhava, em uma transportadora, para ajudálo a lavar peças e aprender a sua profissão”.
 
Em meados de 1992, ele foi trabalhar em uma autopeças como estoquista. “Foi lá que eu aprendi sobre códigos, eu conhecia as peças, mas não os códigos. A loja fornecia só peças da Scania, quando entrei me deram os códigos no papel, que iam de 01 até o último que a montadora tinha. Eu separava toda a mercadoria, conforme os códigos, e fui aprendendo e decorando-os e isso só acontece na prática. Fiquei lá por cinco anos, a loja entrou em crise e faliu”.
 
Desempregado e em busca de uma oportunidade, Santos entrou na Perim Autopeças, em Santos (SP), como estoquista em 1997, o que para ele não foi um retrocesso. “Apesar de eu já ter tido trabalhado como balconista, no estoque da Perim eu aprendi muito mais, além de peças e códigos”. De volta ao balcão, ele diz que o desafio é manter o cliente. “Eu atendo com técnica, gentileza e educação, mas é difícil lidar com o ser humano, mas a gente vai levando e aprendendo a cada dia com eles”.
 
Luiz Sergio Alvarenga, membro do conselho diretor do IQA – Instituto da Qualidade Automotiva – Foto: Divulgação
 
A rotina dele é intensa. “Já chego ligando o computador para ver os e-mails e respondê-los o mais rápido possível. De vez em quando é meio complicado, pois é preciso atender o telefone, o WhatsApp e assim por diante, e de forma que nada saia errado para que o cliente não se aborreça. Atender o WhatsApp e o balcão ao mesmo tempo é meio complicado, mas a gente faz aquele esforço e consegue”.
 
Para se atualizar, Santos diz que o que funciona mesmo é na prática. “Como atendemos muitas oficinas com profissionais que se formaram em eletrônica, pois os caminhões hoje em dia são eletrônicos, nós vamos pegando as dicas com eles e aprendendo no dia a dia. Costumo também assistir a alguns vídeos na internet, mas nada como a prática. Mesmo que você erre hoje, amanhã você acerta. E quando eu tenho dúvida, eu pergunto para quem sabe mais, o mecânico”.
 
Os planos futuros de Santos é continuar vendendo e, quem sabe, se aposentar com chave de ouro e num cargo de gerência. “Eu quero continuar vendendo, principalmente na Perim que é minha vida, eu praticamente moro aqui, só volto para casa para dormir. Hoje estou com 45 anos de idade e penso que se eu tiver a oportunidade de gerenciar uma das lojas, de passar o meu conhecimento para os vendedores, eu me aposentaria com chave de ouro”.
 
Tentativa bem-sucedida
 
No Mercadocar, em São Paulo (SP), há mais de três anos e meio, Amarildo César Barboza, o Mazinho, começou como garagista e há mais de um ano e meio teve a oportunidade de ser contratado como vendedor. “Vivemos em um país onde vontade se torna necessidade e necessidade se torna prioridade. O setor automotivo sempre deslumbrou desejo, o conhecimento e a vontade de aprender sobre carros, desde um salão automotivo de luxo até a mecânica do seu Zé. Eu entrei nesse mercado por dois motivos”.
 
O primeiro foi procurar emprego e o segundo, pela oportunidade na área de vendas. “Eu estava procurando emprego e, uma vez contratado pelo Mercadocar onde eu trabalhava de garagista, uma vaga de vendedor foi aberta. Eu pensei: por que não tentar? Fiz o processo de seleção interna e fui aprovado em três dias”. Mazinho comenta que por mais parecidos que sejam no dia a dia, o desafio é estar se atualizando cada vez mais com informações. “Desde as menores às mais técnicas. Quanto mais informação, menos erros a serem cometidos”.
 
Também como desafios, ele coloca o bom atendimento, a satisfação do cliente, a satisfação da gestão e do Mercadocar. “O meu dia a dia é desenvolver um trabalho com atendimento assertivo e vendas com satisfação, de forma honesta e digna, não só para os clientes, mas principalmente para meus gestores e meus colegas de trabalho. A minha rotina é atender clientes, passar informações sobre produtos, mostrá-los, fazer checklist, auxiliar meus gestores e meus colegas de trabalho, vender produtos, finalizar vendas e analisar sistema”.
 
 
Ranieri Leitão, presidente do Sincopeças Brasil e do Sistema Sincopeças/Assopeças (Ce) – Foto: Divulgação
 
Para se atualizar, Mazinho recorre a sites, às informações na internet e outros meios. “Com os meus colegas de trabalho, revistas, no Jornal Balcão Automotivo, em outras publicações do setor e até em alguns programas de TV. Qualquer informação, por menor que ela seja, já deixa as coisas mais claras. E hoje, o Mercadocar conta um suporte de cursos online e presenciais”.
 
Falando sobre planos futuros, Mazinho diz que o futuro começa pelo hoje. “O que você faz hoje ecoa na eternidade. Atualmente, eu planto coisas boas para colher coisas boas no futuro. A vida é tão simples e linda quanto o sorriso de uma criança ou o desabrochar de uma flor. O fato de você enxergar, tocar, sentir, falar, andar e ouvir já e uma dádiva de futuro, ou seja, meus planos e isso: ser feliz. Profissionalmente, é estar me atualizando cada vez mais, principalmente no Mercadocar que me auxilia nesse futuro”.
 
Regulamentação
 
A Confederação Nacional do Comércio (CNC), por meio da Câmara Brasileira de Comércio de Peças e Acessórios para Veículos (CBCPAVE), deliberou favoravelmente em sua última reunião pelo início dos trabalhos do projeto de norma técnica da ABNT – Associação Brasileira de Normas Técnicas – para a qualificação do balconista de peças e acessórios para veículos.
 
“Esse projeto de norma também possibilitará o estabelecimento de uma política de cargos e salários, ganhos de produtividade, melhores indicadores para capacitação e fundamentação para o teste de certificação de competências profissionais e os primeiros passos para uma certificação reconhecida pelo INMETRO”, informa Luiz Sergio Alvarenga, membro do conselho diretor do IQA – Instituto da Qualidade Automotiva.
 
Ainda de acordo com ele, “essa ação estimulará o varejo de peças para elaboração de outros projetos de normas como, por exemplo, de estoque, logística, entre outras relacionadas à melhoria contínua para atendimento dos consumidores”.
 
Presidente do Sincopeças Brasil e do Sistema Sincopeças/Assopeças (Ce), Ranieri Leitão, deixa as suas colocações. “Com essa ação, nós entendemos no Sincopeças Brasil a importância que estamos levando para as empresas através da qualificação de seus profissionais de venda. É muito importante uma empresa ter profissionais qualificados para que possam atender de maneira adequada os seus clientes, levando para eles segurança e presteza que está sendo disponível”.


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