BA 170 | Fauzi Timaco utiliza o câmbio para explicar a economia

Por Fauzi Timaco Jorge
05/01/2021 11:28:19

 
A taxa de câmbio estabelece o preço de uma moeda, expresso em outra moeda. Assim sendo, o preço de US$1.00 é o equivalente a R$5.10.
 
Volatilidade é o termo que indica uma oscilação para cima ou para baixo, sob dependência das forças que interagem no mercado de compra e venda da moeda estrangeira. Assim sendo, quando existem mais compradores com um volume acentuadamente maior de procura de moeda estrangeira, o preço dessa moeda tende a se elevar. Por outro lado, como acontece com certas mercadorias, quando a oferta é maior do que a procura, a tendência é uma queda no preço, provocada pelo hiato deflacionário dado pela diferença entre a quantidade ofertada e a quantidade procurada dessa moeda. No primeiro caso, o que se observa é um hiato inflacionário, que ocorre sempre que a quantidade procurada é maior do que a quantidade ofertada. No caso em questão, quantidade procurada e quantidade ofertada de moeda estrangeira.
 
Os que oferecem moeda estrangeira no mercado de câmbio são os exportadores. Seus contratos de câmbio, parte indispensável da documentação de exportação, os obrigam a negociar as divisas – o total de moeda estrangeira que recebem pela venda no mercado externo de seus produtos e serviços – com um banco comercial autorizado a operar no mercado cambial. Por sua vez, quem demanda moeda estrangeira são os importadores, que levam moeda nacional a esse banco autorizado a comprar e a vender moeda estrangeira, para comprar a moeda estrangeira que deverá ser remetida para os exportadores estabelecidos em outros países.
 
Como já ressaltamos em artigo nesse mesmo veículo, fatores exógenos, ou seja, absolutamente fora do controle do gestor do negócio, exercem poderosa força que requer neutralização se for uma ameaça ou aproveitamento, se for uma oportunidade. A neutralização é uma decorrência de perdas cambiais, provocadas por uma taxa de câmbio que esteja acima ou abaixo daquela prevista inicialmente, quando da contratação da compra ou venda do produto importado ou nacional. Quando o câmbio aumenta, importadores são obrigados a alavancarem maior quantidade de moeda nacional para a aquisição da moeda estrangeira. Esse aumento do câmbio agrada aos exportadores, que receberão maior quantidade de moeda nacional por unidade de moeda estrangeira. Mas os exportadores se veem aflitos quando há uma apreciação da moeda nacional, ou seja, quando receberão menor quantidade de moeda nacional por unidade de moeda estrangeira. Como se pode depreender, o câmbio faz parte das forças econômicas, componentes essenciais do macroambiente de operação das empresas, ao lado de forças tecnológicas, forças político-legais e forças sociais. Dada essa volatilidade, o câmbio representa o inferno astral modificado dos executivos, qualquer que seja seu signo. Um inferno astral modificado, porque dura 365 dias do ano!
 
A Economia Aplicada nos oferece alguns importantes instrumentos de ação para a neutralização de ameaças ou aproveitamento de oportunidades. Uma delas é o índice de taxa de câmbio real (ITCr). Trata-se de um instrumento útil para todos aqueles que importam ou exportam bens e serviços. Este índice pode ser deduzido a partir da relação entre a variação cambial e a comparação entre a inflação doméstica e a inflação do país cuja moeda se quer relacionar, medida por um indicador de mesma natureza, como é o caso do Índice de Preços ao Consumidor – Amplo (IPCA), medidor oficial da inflação brasileira e, no caso de uma comparação com a moeda dos Estados Unidos, o Consumer Price Index (CPI), numa formulação como a que segue:
 
 
onde At é a taxa cambial na época t, At-1 é a taxa cambial na época anterior t-1, a é a inflação doméstica no período compreendido entre t e t-1 e b é a inflação no país cuja moeda se quer relacionar. Nesta formulação, a inflação é expressa em número natural, tal que 7,5% corresponde a 0,075.
 
Porque é importante resolver esta simples operação matemática, de vez em quando? Porque se o ITCr resultar maior do que 100, significa que o exportador receberá maior quantidade de moeda nacional para cada unidade de moeda estrangeira. Já o importador terá que despender uma quantidade maior de moeda nacional para concretizar suas compras ou saldar dívidas em moeda estrangeira. Se o ITCr resultar menor do que 100, o exportador receberá menor quantidade de moeda nacional para cada unidade de moeda estrangeira e não terá outra saída que não seja o aumento do seu preço de venda em moeda estrangeira. Se isso não for possível, dada a ampla competitividade do mercado externo, não lhe restará outro caminho que não seja o encerramento de suas vendas ao exterior. Já o importador precisará de menor quantidade de moeda nacional para cada unidade de moeda estrangeira que terá que remeter ao exterior por conta de suas compras internacionais. Deu pra sentir por onde passa a desindustrialização?
 
Tomemos os valores base novembro.2020, comparativamente a novembro.2019, para o câmbio R$/US$ e inflação oficial brasileira comparada com a inflação norte-americana. O ITCr que daí resulta é 122,51. Isso significa que os contratos de exportação estão gerando maior quantidade de moeda nacional nesse interregno de um ano. Bom para o exportador! Por outro lado, as importações ficam mais caras, provocando, por vezes, inflação de custos, a qual nem sempre é repassada aos preços de venda. Com isso, haverá diminuição da lucratividade ou até mesmo prejuízo, dada essa impossibilidade de repasse aos compromissos assumidos a preços anteriores. Ruim para o importador ou comprador, no mercado nacional, de peças importadas...
 
Com base em projeções desses componentes do ITCr, ou seja, do câmbio e da inflação aqui e no país cuja moeda se quer relacionar, é possível a adoção de medidas preventivas, como trava de câmbio, operações de hedge [proteção] e operações de mercado futuro de moeda estrangeira, conciliando interesses de exportadores e importadores, intermediadas por um banco com presença internacional. Por tudo isso, não deixe de consultar seus parceiros financeiros para uma adequação dos riscos a serem suportados em operações com o mercado externo.
 
 
* Fauzi Timaco (foto) é Mestre em Economia pela PUC/SP. Exerceu função executiva em empresas nacionais e estrangeiras nas áreas de vendas, exportação e planejamento. É sócio-gerente da Timaco Planejamento Empresarial desde 1994, uma consultoria na área de planejamento empresarial. Atua como Professor-Tutor no Pós-Graduação Online em Gestão Financeira do sistema FGV Online, desde 2010. Em suas atividades acadêmicas consta a coautoria de diversos livros versando sobre Economia, Finanças e Controladoria


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