BA 170 | Perspectivas para o segmento da reposição automotiva

Por Karin Fuchs
04/01/2021 14:46:13

 
Ao que tudo indica, o próximo ano será bastante promissor para o aftermarket e com uma frota reparável cada vez maior
 
2020 trouxe muitas incertezas e mudanças para o mercado, a começar pela forma de fazer negócios, já que a pandemia impôs o isolamento social. Fábricas foram fechadas oi passaram a operar em turnos reduzidos e retomada já de mostra presente. O que esperar e como se preparar para as oportunidades que o próximo ano reserva ao setor, aqui, na visão dos especialistas: Ricardo Bacellar, sócio-líder do setor de Industrial Markets e Automotivo da KPMG no Brasil, Laurent Guerinaud, diretor Geral da GiPA do Brasil, Danilo Fraga, diretor de Inteligência de Mercado da Fraga Inteligência Automotiva, e do fundador da 2D Consultores Associados, Marco Flores.
 
Para este ano, a Fraga Inteligência Automotiva prevê um crescimento de 0,8% para o mercado de reposição, baseado em seu modelo econométrico, que reúne informações reais e previstas de diversas variáveis macro econômicas, tais como: crescimento do PIB, taxa de câmbio, inflação, confiança da indústria e do consumidor, aliado aos dados macroeconômicos.
 
“Nós trazemos ao modelo variáveis micro que estão diretamente ligadas ao desempenho do mercado de reposição de autopeças, onde destaca-se a evolução real e prevista da frota circulante, distância percorrida, consumo de combustíveis, passagens nos pedágios e passagens médias nas oficinas mecânicas independentes”, diz Fraga.
 
Para 2021, ele avalia que as vendas de veículos novos permanecerão abaixo do registrado em 2019 e a recuperação desse mercado só ocorrerá a partir de 2023. Em contrapartida, o total da frota reparável terá um crescimento de 1,13% em relação a 2020. “Esses indicadores e a recuperação das distâncias percorridas pelos veículos, em crescimento desde o mês de julho, nos indica que não haverá falta de serviços nas oficinas mecânicas no ano de 2021”.
 
Hoje circulam no Brasil 47,05 milhões de veículos leves e pesados. Até 2025, ela atingirá a marca de 49,39 milhões de autos em operação, crescimento de 4,94% no período. “Parte desses veículos em circulação está em período de garantia. Se considerarmos somente os com mais de 4 anos de idade (fora do período de garantia) o total da frota “reparável” até o final deste ano será de 38,02 milhões de veículos e de até 40,12 milhões, em 2025”.
 
Com a queda no volume de vendas de veículos novos em decorrência da pandemia e crises econômicas, ela passa por um acelerado processo de envelhecimento. “Atualmente, os veículos leves em circulação possuem uma idade média de 10,5 anos, até o ano de 2025 essa categoria de veículos se manterá envelhecendo com a perspectiva de fechamento do ano em 11,2 anos. Os ônibus, por sua vez, sofrerão com um envelhecimento acelerado, passando dos atuais 15,7 anos para 16,8 anos. Já os caminhões representam a única categoria com certa estabilidade, saindo de 12,9 anos para 12,8 anos de idade”.
 
Danilo Fraga, diretor de Inteligência de Mercado da Fraga Inteligência Automotiva – Foto: Divulgação
 
Frota reparável
 
Marco Flores começa por ilustrar a evolução da frota reparável. “Em 2010, a frota nacional era de cerca de 32 milhões de veículos e 22 milhões era a reparável estimada, ou seja, menos de 72% da frota total. A previsão para o final deste ano é que a frota circulante chegue a quase 46 milhões e a reparável, pouco mais de 42 milhões de veículos, cerca de 93% tornaram-se frota reparável. Isso significa dizer que ela está envelhecendo, é a mais antiga dos últimos 18 anos, com idade média de 9,7 anos”.
 
E ainda, o número de veículos a mais que entrará neste ano no mercado de reposição é estimado entre 800 mil a 1 milhão de unidades. Entre os vetores positivos que independem da economia, ele destaca: “questões sanitárias, a objeção de quem utiliza transporte público para cada vez mais utilizar os privados. O segundo vetor positivo é que a frota circulante reparável terá acréscimo neste ano e o terceiro extremamente relevante, o faturamento de toda a cadeia está diretamente proporcional ao número de frota reparável”.
 
Com base em dados do Sindirepa, Flores comenta que o faturamento do setor como um todo pode ter um acréscimo de R$ 1,5 bilhão. “Em 2019, o faturamento no segmento de reparadores foi de cerca de R$ 68 bilhões. Desse total, 30% são serviços e 70%, peças. O que as oficinas pagaram de peças para varejos e distribuidores é estimado em R$ 50 bilhões. Se a frota reparável era de aproximadamente 41 milhões de unidades, cada veículo consome em torno de R$ 1.250,00 em peças/ano. Considerando que aproximadamente 1 milhão de veículos entrarão no mercado de reposição, em 2021, o faturamento do setor será de cerca de R$ 1,5 bilhão a mais que neste ano”.
 
Ricardo Bacellar cita como termômetro as vendas de veículos novos e seminovos, com base em dados da Fenauto. “O que percebemos com as conversas no mercado é que está todo mundo se reorganizando, o componente de ocupação com qualidade sanitária está gerando um impacto muito grande nas vendas. Tanto que em novembro tivemos um boom nas vendas de usados e seminovos, de pouco mais de 15% quando comparado ao mesmo mês de 2019. Isso confirma a tendência de o brasileiro voltar a ter interesse no carro usado e seminovo, que é mais barato”.
 
Marco Flores, fundador da 2D Consultores Associados – Foto: Divulgação
 
Por outro lado, houve um decréscimo nas vendas quando comparado ao mês anterior. “Ficou praticamente no mesmo patamar, com uma diferença em torno de 4%, o que pode significar que podemos ter chegado em um platô. Ainda não temos os números de dezembro que são importantes, por causa do 13º salário, mas podemos ter chegado em um platô e isso tem que ser observado porque o ambiente macroeconômico nos dá umas nuances, o auxílio emergencial acabará e as pessoas estão inseguras se seus empregos serão mantidos”.
 
Além da questão consolidada da volta do consumidor de veículos usados e seminovos, Bacellar também observa a retomada do serviço de mobilidade (motoristas de aplicativos e táxi). “Todo mundo está se reequilibrando, ainda não nos patamares da pré-pandemia, mas já é umbom sinal. Acima de tudo isso, a grande novidade em 2021 serão os veículos elétricos”.
 
Para Bacellar é preciso que haja uma visão de economia circular. “Se continuarmos nesse ritmo, as ruas voltarão a ficar engarrafadas e criaremos um círculo vicioso que não favorece a sociedade e nem o próprio negócio, pois haverá dificuldade também em colocar carros novos nas ruas”. Ele defende a retomada da pauta sobre renovação da frota com o Governo Federal e da pauta com as prefeituras a respeito da inspeção veicular. “Assim, conseguiremos criar um programa de renovação da frota, o que é tão necessário voltarmos aos grandes volumes de vendas, sem necessariamente causar um mega impacto nas ruas”.
 
Retomada
 
Para Laurent Guerinaud, a menos que haja uma segunda onda ou outro fator extraordinário, todas as tendências serão positivas. “O aftermarket deve encerrar o ano 2020 em queda superior a 15% em relação a 2019, e para atender às necessidades dos seus clientes, a GiPA desenvolveu o SDP+ (Smart Demand Planner +), uma ferramenta inédita, que, a partir de determinadas variáveis, permite projetar a atividade do aftermarket para os três próximos anos”.
 
Segundo ele, considerando as projeções mais prováveis, “a retomada vai prosseguir nos próximos anos, mas o faturamento do aftermarket não vai voltar ao seu nível de 2019 antes de 2022, ainda considerando o efeito de alta dos preços. Já se considerar a atividade em volume e não em valor, vai demorar ainda mais”. Ele explica que uma das variáveis que determinam o nível de atividade do aftermarket, claramente, é o uso que o motorista faz do carro.
 
Ricardo Bacellar, sócio-líder do setor de Industrial Markets e Automotivo da KPMG no Brasil – Foto: Divulgação
 
“Desde 2018, e bem antes no exterior, a GiPA tinha identificado uma tendência à diminuição da quilometragem anual percorrida pelos motoristas. Para alimentar a ferramenta de projeção SDP+ e calcular a evolução do uso do carro, avaliamos e medimos o impacto de vários efeitos. O primeiro é a evolução da estrutura do parque, notadamente por idade e combustível, o segundo é a mudança de comportamento do motorista, o terceiro está relacionado à pandemia e o quarto, o medo do transporte público”.
 
Em relação ao desabastecimento de peças, Guerinaud conta que a GiPA publicou, no seu site internacional, uma análise aprofundada da situação no Brasil, apontando como uma das chaves do sucesso na retomada, a necessidade de acompanhar de muito perto o mercado para gerenciar corretamente os estoques. “A situação é complicada porque envolve todos os níveis da cadeia, porém, não de maneira uniforme, entre outros atores do setor, nossos clientes, tendo dados e projeções confiáveis, conseguiram administrar seus estoques e continuam a abastecer o mercado”.
 
Fatores pelos quais ele analisa que o desabastecimento até o momento não chegou a prejudicar o motorista. “Em todos os níveis, ainda é possível encontrar algum fornecedor que atenda a demanda. Pois, uma das especificidades do aftermarket brasileiro é que as lojas de peças e oficinas costumam trabalhar com um grande número de fornecedores, entre os quais o reparador ainda consegue encontrar as peças que ele precisa: as falhas de uns são oportunidades para os outros”.
 
Ele acrescenta que alguns não experimentaram a crise de desabastecimento, para outros, já normalizou, e para os demais, a situação não está perto de se resolver, parte pode até chegar a não se recuperar. “Agora, além da capacidade de produção dos fabricantes e escassez de matérias-primas o grande risco é a tentação de produzir e estocar além da demanda. É imprescindível acompanhar a atividade na ponta, como faz a GiPA, e não só se atentar à demanda dos distribuidores e varejistas, que pode ser distorcida e cair de repente na medida que reduzirem o estoque de precaução”.
 
Na visão de Marco Flores, o desabastecimento é temporário. “Até que haja a reacomodação do desabastecimento demorará um pouco mais, eu creio que de fevereiro para março ele já estará normalizado. Quero crer que 2021 será um ano tão bom ou não tão ruim de reabastecimento como foi nos outros anos, exceto no período de Covid-19. Não haverá nem falta e nem oferta de mercadoria em excesso. A partir do segundo trimestre de 2021, as demandas estarão muito mais mapeadas por todos e haverá uma acomodação”.
 
Laurent Guerinaud, diretor Geral da GiPA do Brasil – Foto: Divulgação
 
Gestão eficiente
 
Fraga aponta que o principal ponto de atenção é em relação ao nível de abastecimento das indústrias, ainda baixo em decorrência da falta de matérias-primas, taxa de câmbio e paralizações em decorrência da pandemia. “Os agentes comerciais (varejos e distribuidores) que estiverem mais preparados em relação à gestão do portfólio, organização de pedidos e estoque terão maiores possibilidades de atender à demanda que se manterá aquecida”.
 
Ele comenta que a alta do dólar e falta de matériaprima irão gerar uma forte pressão nos custos das indústrias e importadores de autopeças, o que certamente desencadeará uma elevação nos índices de preços praticados no segmento como um todo. “Já a questão do desabastecimento tem elevado a competitividade das marcas, tornado ainda mais complexa a gestão dos estoques e portfólios dos agentes comerciais do segmento”.
 
Fraga destaca que a gestão dos estoques e portfólios de produtos dos agentes comerciais será o ponto-chave dentro deste cenário mais complexo e competitivo, que também é agravado pelo efeito de pulverização da frota circulante. “No ano de 1990, os 10 veículos mais representativos da frota brasileira, eram responsáveis por 59,19% do mercado de reposição, até 2025 os veículos mais representativos serão responsáveis por 32,70% do mercado”.
 
Em contrapartida, os veículos menos populares (acima da 31ª posição no ranking ABC) representavam somente 10,87% do mercado, hoje (2020) já representam 39,26% do mercado e até 2025 representarão 41,48%. “Os agentes comerciais deverão urgentemente otimizar sua estrutura de compras para atuação nesta realidade complexa. Desenvolvendo ferramentas que os permitam identificar melhor a demanda, criando estratégias para que a cobertura de linha continue a mais completa possível sem gerar estoques morosos e ineficientes. Neste ponto as soluções de tecnologia e informações disponíveis serão grandes aliados do mercado”.
 
Assim como Fraga, o diretor Geral da GiPA diz que para 2021, mais do que nunca, a oportunidade é uma boa gestão, com monitoramento adequado do mercado e da sua evolução. “É primordial para se adequar às necessidades. Como disse anteriormente, as falhas de uns são oportunidades para outros. O desabastecimento é uma oportunidade incrível para quem tem capacidade de fornecer, e não só em curto prazo, porque os clientes conquistados agora podem ser fidelizados no futuro”.
 
Também é importante captar clientes. “A demanda existe, mesmo que o mercado esteja se contraindo por causa do menor uso do carro e da crise econômica resultante da pandemia. Os motoristas não vão deixar de manter seus carros. É um momento de muita mudança, em que os mais bem preparados têm grandes oportunidades de conquistar novos clientes e crescer muito”.
 
Outro ponto a favor, comenta ele, é o envelhecimento do parque circulante. “Embora o perfil de consumo seja diferente, geralmente mais focado em preços, sabemos que o gasto anual para manutenção de um carro antigo é maior. Quem oferecer produtos e serviços adequados aos perfis de motoristas mais representados no parque pode se beneficiar muito desta evolução”.
 
Em contrapartida, Guerinaud analisa que um dos maiores desafios será o posicionamento de preços. “Acompanhar os preços dos competidores será imprescindível para se manter no meio da tempestade. Há muitos efeitos complexos e opostos que pressionam os preços, é muito complicado prever como vão evoluir as tarifas”.
 
Flores prevê que em 2021 o segmento terá aumento de faturamento. “A estimativa é que a frota reparável aumente em 3%, adicionada essa frota, acredito que em 2021, mais uma vez, o mercado de autopeças terá o melhor ano da sua história, dado ao aumento da frota, da circulação, do engarrafamento e à ineficiência do poder público em criar transporte coletivo com segurança. Ainda que venha a vacina, acho difícil que aqueles que experimentaram o conforto de se deslocarem nos seus veículos voltem a utilizar o transporte coletivo, ineficiente e com baixa segurança física”.
 
Frota eletrificada
 
Sobre a frota eletrificada (elétricos e híbridos), Guerinaud conta que neste ano a estimativa é de aproximadamente 1,8 milhão de veículos emplacados, dos quais os eletrificados representam 1%. Já no acumulado, os 40 mil veículos eletrificados emplacados nos últimos anos representam menos de 0,01% do parque circulante no Brasil. “O mercado está em plena ascensão sim, mas ao mesmo tempo, continua incipiente no País”.
 
Mesmo assim o setor de autopeças precisa se preparar. “Mas em longo prazo, no momento e nos próximos 10 anos, carros eletrificados vão representar nichos de mercado, nos quais alguns atores podem se dar muito bem. Porém, não serão suficientemente representativos para gerir uma perda para quem não oferecer peças de reposição para esses veículos. A maior dificuldade em curto e médio prazos será para montadoras e concessionárias, que vão precisar atender às necessidades dos veículos eletrificados, mesmo que eles ainda representem uma porção muito pequena das suas vendas”.
 
Para Ricardo Bacellar, sócio-líder do setor de Industrial Markets e Automotivo da KPMG no Brasil, a maior porta de entrada para esses veículos são a locação e o aluguel. “Nós temos um problema crônico no nosso modelo de negócio tradicional de compra e venda de veículos, são dois fortes ofensores: o tíquete de entrada médio é muito alto para os brasileiros, não conseguimos falar de carro novo por menos de R$ 40 mil, com as incertezas do médio e longo prazos, é uma decisão de compra difícil. O outro é o custo total de propriedade que no Brasil também é alto (seguro, IPVA, manutenção, etc.)”.
 
Ele diz que a indústria está se mobilizando para reduzir esses ofensores. “No modelo de negócio das locadoras isso já está resolvido, no aluguel de um carro, esses dois ofensores são diluídos. E há várias montadoras tomando iniciativas concretas para alugar veículos e há toda a discussão também dos modelos de assinatura que estão vindo com força. A indústria já entendeu que precisa criar uma nova linha de oferta”. Mais delicada é a locação por parte das montadoras, pelas locadoras serem suas principais clientes.
 
Para o mercado de reposição, Bacellar afirma que o primeiro impacto importante é o entendimento de que o veículo elétrico é muito mais simples, ele tem muito menos peças e muito menos necessidade de manutenção. “Ainda levará um tempo para isso gerar um mega impacto no aftermarket, mas sabemos que os ciclos na indústria são de três a cinco anos, então, nesse período, já será um problema para o aftermarket. Quanto maior for o percentual de veículos elétricos na frota brasileira, mais grave é o impacto no aftermarket”.
 
Por outro lado, ele pondera que o veículo elétrico carecerá de outros tipos de serviços para os quais o aftermarket precisa se preparar, treinar mão de obra e ter equipamentos de segurança. “Vai carecer de um trabalho de reciclagem. Em minha opinião, isso está defasado nos esforços que estão sendo feitos para criar a infraestrutura de recarga. São várias iniciativas cada vez mais robustas de criar pontos de recarga no País. Mas e os pontos de suporte?”, questiona.
 
O que não significa dizer que os veículos a combustão irão desaparecer. Tanto que Bacellar cita como exemplo a Fiat Chrysler Automobiles (FCA) e a Nissan, ambas anunciaram recentemente investimentos em fábricas de motores. “São sinais claros de que no Brasil ainda falaremos de motores a combustão por muitos anos, sem necessariamente associar isso a gasolina ou diesel, mas sim, ao etanol. Teremos uma geração de motores muito mais eficiente, não só de tecnologia, mas já estamos falando de etanol 2.0”.


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