BA 173 | As mulheres na linha de frente do varejo de autopeças

Por Karin Fuchs
01/04/2021 18:35:06

 
Mulheres que aprenderam a lidar com um setor ainda prioritariamente masculino, conquistaram o seu espaço e posições no varejo de autopeças
 
No mês das mulheres, a homenagem do Caderno Balconista é para quem faz a diferença nas autopeças. De Norte a Sul do País, são tantas histórias para contar de quem venceu em um setor prioritariamente masculino, chegando até a cargos de coordenadoras e de gerentes comerciais. Nessa matéria, seis delas compartilham as suas histórias, vivências, desafios e conquistas.
 
Na Tropical Peças, em Cuiabá (MT), a mineira Simone Montiel começou a sua carreira em 1987, um mês depois que foi morar na cidade. Ela imaginava que seria uma profissional da área de saúde, psicóloga ou fisioterapeuta. A psicologia ela acabou usando na prática. “Todo vendedor é também um psicólogo, principalmente no atendimento ao consumidor final para descobrir a necessidade dele e ser uma boa ouvinte”.
 
Inicialmente como caixa, Simone passou por outras áreas na empresa e desde 1990 é vendedora. “Na época, o proprietário da empresa viu algo em mim e me deu essa oportunidade. Foi difícil no começo, eu chorava, não queria, não entendia de peças. Passei por muitas ofensas, muitos elogios e por cantadas malcriadas, mas eu soube administrar tudo isso. Tanto que estou aqui até hoje e sou muito grata ao Roberto (diretor), que me apoiou e acreditou em mim, e outros também me ajudaram”.
 
Daquela época, ela deve ter sido pioneira em vendas no balcão na linha pesada. “Não sei se alguma distribuidora tinha vendedora, mas é um ramo bem masculino, e eu não deixava de ser uma novidade. No começo tinha muito preconceito de não quererem comprar comigo, o que mudou, pois a mulher está entrando nesse mercado, mas ainda são poucas vendedoras de peças de caminhões no varejo”.
Simone Montiel, balconista de
autopeças – Foto: Divulgação
 
O que em sua opinião deveriam ter mais. “Tem clientes que só querem comprar comigo, acho que pelo fato de a mulher ser mais detalhista, mais caprichosa e até na hora de passar o orçamento. E sem desmerecer, pois há muitos homens que são organizados”. Ilustrando como o mundo mudou, Simone conta que ela é do tempo em que não existia o catálogo eletrônico. “Eram microfichas, o que é o mais complicado do mundo”.
 
Também de 1990 aos dias hoje, quantos caminhões novos foram lançados? “Eu tive que me preparar muito, em todos os sentidos: conhecer o mercado, os produtos, marcas e fornecedores. Tem que acompanhar tudo isso, senão você para no tempo. Tem que saber o que tem hoje para poder vender um produto”.
 
E se no início Simone levava para casa as suas inseguranças, “meu marido dizia que eu ficava falando de peças e que eu ficava preocupada. De fato, eu não sabia administrar muito bem isso. Com o passar do tempo, a gente administra bem”. Hoje segura na sua carreira, ela também é mãe de três filhos.
 
Autopeças por acaso
 
Sem nunca ter trabalhado com carteira assinada e muito menos em autopeças, em uma conversa com o seu vizinho, Cátia Souza Nogueira, coordenadora da Jocar, em São Paulo (SP), ouviu falarem muito bem da Jocar, que já tinha trabalhado lá, que era uma empresa muito séria e que ele admirava muito. “Eu pensei que se fosse para eu trabalhar, que seria em uma empresa assim, quem tem benefícios, paga direitinho e respeita os funcionários”.
 
Por coincidência, cerca de cinco anos depois, ao passar próxima a uma das unidades da Jocar, ela viu uma placa de precisando de balconista. “Eu lembrei que era a empresa que o rapaz tinha me dito, eu tinha saído de um trabalho e decidi tentar. Naquele tempo (2012) não tinha vendedoras em autopeças. Eu queria ser desafiada, e para quem não conhecia nada de carro, só volante e pneus, foi realmente um desafio”.
Cátia Souza Nogueira, coordenadora
da Jocar, em São Paulo (SP) –
Foto: Divulgação
 
Ela aprendeu tudo na Jocar. “Quando me contrataram, eu achei linda a atitude do gerente, pois eu não tinha nenhuma experiência. Ensinaram-me desde o começo, me lapidaram e descobriram um talento em mim. Acredito que o que me destacou foi a educação, a simpatia e por querer mudar a visão (masculina) de autopeças. Vi que eles estavam com esse intuito de começar a contratar mulheres, pelo fato de não ter tanta procura por parte delas nesse ramo”.
 
O início não foi fácil. “Quando eu comecei a me destacar como vendedora e os clientes queriam ser atendidos por mim, pela educação, por eu ser mulher e dar mais atenção, eu senti um certo machismo, preconceito, por me destacar no ramo dos vendedores”. E ela foi recompensada. Chegou a sair da empresa, voltou em 2015 e um ano depois foi promovida ao cargo de coordenadora.
 
“O que para mim é um orgulho, sinto-me honrada, pois comecei do nada. O fato de eu ter mudado de cargo também teve certa resistência, uma mulher mandando em homens, demorou um pouco para eu conseguir ganhar o meu espaço em relação aos funcionários. Quantos aos donos, eu fui muito bem recebida”. E com o mesmo carisma, ela continua atendendo os clientes.
 
“O que mudou com o meu cargo foi a autonomia, sinto-me mais forte, mais autêntica e saber que eu tive essa oportunidade me dá força para continuar e mudar essa visão de que autopeças é só para homens”. E ela diz que está aumentando a presença feminina, com mais vendedoras no ramo. “Até por causa da pandemia, acho que as mulheres estão querendo se desafiar, trabalhar em um ramo que talvez não trabalharam. De uns tempos para cá, também têm vindo mais mulheres na loja e tento mostrar que eu também estou aqui, sou mulher, para elas se sentirem à vontade conosco”.
 
Casada e mãe de três filhos, Cátia separa bem a vida pessoal da profissional. “Quando nós fazemos o que gostamos, nós fazemos com prazer. Quando eu chego na Jocar, eu me desligo totalmente da minha vida pessoal. Eu gosto de cantar, sorrir, brincar e interagir com os meus clientes. E junto aos vendedores, eu procuro mostrar uma coisa mais leve, que é uma característica minha. E mesmo com a pandemia conseguimos transmitir essa alegria para os clientes”.
Evelyn de Souza Santos, vendedora
na Fasa Autopeças – Foto: Divulgação
 
Aprendizado constante
 
Em Curitiba (PR), Evelyn de Souza Santos, vendedora na Fasa Autopeças, começou na loja em 2012, após sair de um estágio no setor da indústria. “Entrei no comércio pela ambição (oportunidade de melhores salários). Para a mulher o mais difícil é o tabu que ela não entende de peças, por ser um ambiente mais masculino, e aprender sobre coisas que não fazem muito parte de um universo feminino e ser reconhecida nesse ambiente”.
 
Em sua opinião, a presença das mulheres em autopeças não tem aumentado muito. “Acho que a mulher ainda tem um certo receio por achar que nunca vai entender sobre os componentes que fazem parte do veículo”. Sobre os desafios da profissão, ela destaca a variedade. “Acredito que seja a grande oferta de peças, porém no cenário atual (pandemia), a oferta diminui devido à matéria-prima escassa e as intervenções logísticas e cambiais”.
 
 
Reflexo disso, comenta ela, “devido à falta de peças, acredito que temos que tentar negociar prazos de entrega diferenciados, oferecendo o melhor atendimento possível. Está difícil para todo mundo, mas temos que tentar nos manter otimistas”. O segredo é gostar do que faz. “Gosto do que faço e sempre tento fazer da melhor forma possível, para que possa deixar meus compromissos profissionais no trabalho apenas no ambiente de trabalho e a minha vida pessoal da porta para fora da empresa”.
 
Vocação
 
Consultora técnica na Lucena Autopeças, em Recife (PE), Natally Grace Pereira de Lima Oliveira Barros, conta que há dez anos ela decidiu trabalhar em uma concessionária Peugeot, por se sentir à vontade com assuntos de mecânica. “Por gostar de carros, o meu maior desejo foi o de quebrar paradigmas de que mulher não entende de peças/mecânica”. Há cinco anos, ela está na Lucena.
 
Natally Grace, Consultora técnica na
Lucena Autopeças, em Recife (PE) –
Foto: Divulgação
 
Ao longo desses dez anos, ela avalia que o espaço vem aumentando para as mulheres. “Inclusive, em cargos de liderança e tende a continuar crescendo. Empresas com lideranças femininas podem aumentar o desempenho financeiro, com mais diversidades, gerando mais receitas, a partir de inovações”. Porém, o maior desafio é provar a capacidade.
 
“O maior desafio, infelizmente, ainda é ter que provar que somos mulheres entendedoras e capacitadas para estar ocupando o lugar que na maioria das visões sempre foram lugares ocupados por homens. Quebrar esse contexto ainda é grandemente presente em nossa profissão”.
 
Em especial no setor de autopeças, Natally diz que a presença feminina vem tendo um grande aumento. “Seja trabalhando e atraindo um grande público feminino para oficinas mecânicas, autopeças e concessionárias, como também comprando. O público feminino tem se sentido mais à vontade com um atendimento feminino e o público masculino tem se rendido ao tratamento delicado, com eficiência nas informações e paciência em todas as dúvidas explicadas. Um verdadeiro diferencial!”.
 
 
Para ela, o sucesso profissional é interligado ao pessoal. “Não misturo os dois lados, mas procuro positividade e soluções para que os dois consigam andar para frente. Ambos separados em suas necessidades de ações, porém ligados numa intensidade positiva emocional única, em busca de um crescimento múltiplo contínuo e natural”
 
Pela paridade de gêneros
 
Silvana da Solidade Almondes, compradora na Braskape e Kohara, em São Paulo (SP), começou no setor em 1996, por curiosidade. “Eu trabalhava com moda de luxo e queria mudar. Uma amiga me indicou para ser telemarketing na RPR MOTOSHOP (meu segundo emprego), que hoje faz parte do grupo Comolatti. Permaneci lá por 14 anos, passando por todos os setores da empresa até chegar ao de compras. Eu tive um grande mestre a quem devo muito, o Sr. Wilson R. Molina, que me ensinou quase tudo que sei hoje”.
 
Silvana da Solidade Almondes,
compradora na Braskape e Kohara,
em São Paulo (SP) – Foto: Divulgação
 
De lá para cá, muita coisa mudou. “A forma de trabalhar e como as mulheres hoje são vistas. E o mais importante, respeitadas no mercado. No início (televendas) os próprios clientes agiam com desconfiança, pediam para falar com vendedores homens, faziam brincadeiras e piadinhas que hoje seriam encaradas de outra forma, tive muitas vezes que me impor e provar a minha capacidade, sofri muito preconceito no início”.
 
Em sua opinião, o maior desafio é qualificar mais mulheres para o setor automotivo e em toda cadeia de produção. “Ainda existe preconceito e competitividade entre os gêneros, principalmente na questão de salários. Nós ganhamos menos que o sexo oposto. Continuamos a ter que provar que somos capazes”. O lado bom é que tem mulheres em todos os setores, inclusive mecânicas que colocam a mão na massa.
 
 
“O fato de ter mais mulheres nas lojas e oficinas dá um certo conforto às outras mulheres que frequentam o ambiente. Hoje temos muitas clientes mulheres seja em oficina ou consumidora final. Elas pesquisam na internet e vêm com as fotos das peças, isso é ótimo”, conclui.
 
Mais presença feminina
 
Há quase 21 anos, Renata de Oliveira Grasson trabalha na Auto Peças Rey Maco Cham, em Bragança Paulista (SP). Hoje ela ocupa o cargo de gerente Comercial. “Quando eu entrei no ramo de autopeças, não foi uma opção minha, mais porque eu era muito jovem e queria fazer algo para eu ter as minhas coisas, sem ter que ficar pedindo para os meus pais. Como o meu pai era muito amigo do proprietário da empresa, ele conseguiu que eu entrasse nessa autopeças que estou há quase 21 anos e tenho um prazer imenso por isso”.
 
 
Renata de Oliveira Grasson, da 
Auto Peças Rey Maco Cham, em
Bragança Paulista (SP) – Foto: Divulgação
 
Para chegar onde está, Renata passou por muitas etapas dentro da empresa. “Umas coisas eu posso dizer: não foi nem um pouco fácil. Hoje, eu lidero uma equipe com 22 pessoas, sou respeitada e admirada pelos meus colegas de trabalho”. E os desafios são vários. “Dentre os mais relevantes, é sempre ser firme e coerente nas minhas decisões, sempre buscando o melhor para a minha equipe”.
 
Ela também comenta que a presença das mulheres no ramo de autopeças teve um aumento significativo, “tanto como clientes que vêm até a loja, como as que trabalham com peças”, e que conciliar a vida pessoal com a profissional já faz parte. “Faz tanto tempo que trabalho nesse ramo que consigo muito bem conciliálas. Sempre me organizo para que tudo saia conforme o planejado, não gosto de tomar decisões em cima da hora, por isso, costumo planejar o meu dia sempre antes de ir para o trabalho”.


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