BA 174 | Como o varejo de autopeças tem respondido à pandemia

Por Karin Fuchs
27/04/2021 17:08:49

 
No varejo de autopeças, comportamentos que se mantêm desde 2020 e novos que estão surgindo
 
Depois de um segundo semestre aquecido e de um início de ano com vendas em alta, alguns varejistas já registram uma inversão nesse cenário. Agravado a isso, continuam a falta de peças e o disparo de preço em muitos itens. “O ano começou bem, mas agora estamos percebendo uma desaceleração, tanto por parte dos mecânicos como do consumidor final”, diz Sidney Campos, da Campos Auto Peças, localizada em São Paulo (SP).
 
No Estado de São Paulo, que teve praticamente dez dias de feriados no final de março e início de abril, ele comenta que, infelizmente, isso afetou muito. “Na semana de paralisação, nós ficamos abertos até às 13 horas e trabalhamos com uma venda de 30% a 35% do faturamento. Na semana seguinte recuperou, em 80% do faturamento, mesmo assim, não é o ideal”.
 
Em Curitiba (PR), Michelle Saori Miyake, da Injepremium, conta que o cenário foi similar. “Janeiro e fevereiro foram meses bons. No dia 27 de fevereiro, Curitiba entrou na fase de vermelha e saímos dela no dia 4 de abril. Em março, a maioria do comércio fechou e tivemos uma queda de vendas, porém não tanto quanto tem sido em abril, que está horrível e preocupante”.
 
Júlio Laska, da Auto Accessórios Bangu, no Rio de Janeiro (RJ), informa que houve uma desaceleração em relação a dezembro de 2020. “O segundo semestre de 2020 até o mês de dezembro foi excelente. Posteriormente, as vendas começaram a cair e cada dia estão caindo mais”. Também com uma parada similar à do Estado de São Paulo, a Bangu permaneceu aberta.
 
“O movimento caiu absurdamente, mas conseguimos atender o público mantendo cada vez mais o distanciamento social. Mas, infelizmente, não há muito respeito em relação ao uso de máscara”, lamenta.
 
Em Belém (PA), Roberto Alcolumbre, da Autopeças Macapá, diz que o primeiro trimestre foi aquecido. “Porém, no começo de abril nós tivemos uma considerável queda nas vendas. Também no nosso Estado teve paradas, mas por sermos considerados como essencial, nós continuamos funcionando”.
 
Na Edson Autopeças, em Cuiabá (MT), Silvano Ramalho mostra uma outra realidade. “O mercado continua bem movimentado, praticamente não teve queda. O mês de março foi muito bom e eu venho quebrando recordes de vendas consecutivas. A nossa atividade está como essencial, não teve nenhum dia em que fechamos as nossas lojas, o atendimento foi normal, tomando todas as precauções. No Mato Grosso não parou”.
 
Abastecimento e preços
 
Em comum, todos comentam o quanto a falta de peças ou os aumentos excessivos têm afetado os negócios. “Principalmente os importados vêm sempre subindo, alguns alegam pela falta de matéria-prima, outros, pelo aumento exorbitante do frete. A nossa sorte é que tínhamos um pouco de estoque, suspendemos ofertas e não estamos baixando as margens, pois hoje o diferencial não é quem tem preço, mas quem tem a peça”, informa Michelle Miyake.
 
Segundo ela, várias fábricas estão atrasando os pedidos e até para a entrega de velas uma fabricante já informou que não tem previsão. “Graças a Deus que nós temos um portfólio muito amplo, 19 mil itens ativos, mas já tem coisas de giro faltando”.
 
Ter o estoque abastecido tem sido desafiador para Campos. “Está um absurdo. Não conseguimos mais ter o estoque abastecido com as marcas que estamos acostumados a trabalhar. E na reposição de cada peça vendida estamos levando um susto, o que nos levou a diminuir um pouco as margens de lucro, em virtude do aumento de preços, para não repassarmos tudo para o cliente”.
 
Laska também coloca a mesma situação. “Há muita falta de peças, porque passaram a importá-las e deixaram de lado a fabricação no Brasil. Alegam também para o aumento de preços os custos do frete. Hoje, quem tem o produto nos fornece por preços astronômicos”.
 
Na Edson Autopeças, por fazerem parte da Rede Âncora, muitas das compras foram antecipadas, mas faltaram alguns itens, principalmente na linha de lubrificantes, pneus e derivados de plástico. “Nós compramos um volume muito grande, o que compensou para nós. Mas houve muitos aumentos de preços, de 30%, 40%, tivemos que comprar e isso é repassado para a ponta, mesmo com as altas de preços, nós continuamos vendendo igual”, diz Ramalho.
 
Segundo ele, é melhor ter a mercadoria do que não ter. “E quem tiver vai vender, independentemente do preço que estiver. O consumo, a procura aumentou muito. E eu não sei o porquê, pois hoje com a pandemia eu vejo menos carros nas ruas, só que estamos vendendo mais peças”.
 
Alcolumbre conta que o pior já passou em termos de abastecimento, mas não em relação aos preços. “As entregas estão normalizando, ainda faltam muitas peças, mas já estamos vendo uma luz no fim do túnel para a normalização do estoque. Ainda não estamos conseguindo trabalhar com o que temos e os preços aumentaram absurdamente, em alguns casos, em mais de 50%, e infelizmente, temos que repassá-los para o cliente”.
 
Formato de atendimento
 
Questionados sobre como o cliente tem preferido ser atendido, pelo balcão ou pelo delivery, Campos comenta que nada mudou. “As nossas vendas no balcão sempre representaram 50%, o que continua. Como o nosso setor não foi afetado como outros que tiveram que se reinventar, mesmo com a atual fase de restrições, os clientes estão vindo comprar na loja”.
 
O mesmo acontece na Bangu. “A nossa venda ainda é maior no balcão pela dificuldade técnica, pois para o mesmo carro há uma série de peças diferentes”, explica Laska. Ele acrescenta que o que realmente está prejudicando os varejistas é a concorrência desleal.
 
“Um absurdo que acontece no nosso ramo são os atacadistas, principalmente os nacionais, estarem disponibilizando as suas filiais em Goiânia e Mato Grosso, incentivando os clientes a comprarem por lá para não pagarem a substituição tributária e isso afeta bruscamente a gente que trabalha corretamente. Eles acham que essa é a solução, ficam com o passivo fiscal e tributário durante cinco anos e a gente fica sem vender por conta desses absurdos”.
 
Na Autopeças Macapá, mesmo tendo aumentado os pedidos por telefone, o forte continua sendo o balcão. “Os pedidos por telefone aumentaram 15%, mas o maior volume de vendas continua vindo do balcão”, valida Alcolumbre. Na Edson Autopeças, Ramalho conta que em ambos as vendas aumentaram, no balcão e delivery. “E eu tive que contratar mais pessoas, desde a pandemia, e ainda estamos contratando”.
 
Já na Injepremium, o forte sempre foi o delivery. “Nós temos uma frota de 18 motoboys, a nossa entrega é rápida e no balcão continua vindo um ou outro. O que nos coloca com uma vantagem competitiva, pois tínhamos muitos concorrentes que não estavam preparados para esse delivery, eles colocavam no roteiro do carro para entregas. Nós trabalhamos com velocidade, tanto que aumentamos a frota de motoboys, que é terceirizada”, informa Michelle Miyake.


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